A perda de peso obtida com medicamentos GLP-1, como Ozempic e Wegovy, realmente reduz o risco de outras doenças associadas à obesidade?
Uma nova pesquisa liderada por cientistas da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, e apresentada no Congresso Europeu sobre Obesidade (ECO 2026), sugere que sim - mas com um detalhe importante: os benefícios parecem depender de quanto o índice de massa corporal (IMC) de fato diminui durante o tratamento.
Como funcionam os medicamentos GLP-1 e GLP-1/GIP
Os medicamentos GLP-1 recebem esse nome por imitarem o hormônio peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1). Ao reproduzir a ação desse hormônio, eles ajudam a reduzir o apetite, a regular a insulina e a glicose no sangue e a desacelerar a digestão.
Os fármacos mais recentes dessa classe também simulam a atuação de outro hormônio, o polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP), ligado ao controle da liberação de insulina e ao metabolismo de gordura. Um desses medicamentos, o Mounjaro, também entrou na análise.
Já se sabe que esses tratamentos podem ser eficazes para emagrecer, mas ainda existem dúvidas sobre a efetividade no longo prazo e sobre os impactos no restante do organismo - e foi justamente isso que o novo estudo buscou investigar.
Como o estudo acompanhou o IMC e os desfechos de saúde
A equipe analisou registros de saúde de 89,718 pessoas nos Estados Unidos que haviam iniciado um desses medicamentos GLP-1 ou GLP-1/GIP entre janeiro de 2021 e junho de 2024.
As mudanças no IMC foram acompanhadas por um ano. Depois disso, possíveis condições de saúde foram rastreadas por uma média de 11 meses.
Resultados para Ozempic, Wegovy e Mounjaro: quanto mais IMC cai, menor o risco
Os pesquisadores observaram que os pacientes que mais emagreceram durante o uso de medicamentos GLP-1 tendiam a apresentar menor probabilidade de desenvolver condições ligadas à obesidade, incluindo apneia do sono e doença renal.
Em comparação com quem teve queda de 0 a 5 por cento do IMC ao longo do ano de tratamento, participantes cujo IMC diminuiu 15 por cento ou mais apresentaram:
- 37 por cento menos risco de osteoartrite;
- 30 por cento menos risco de doença renal crônica;
- 69 por cento menos risco de apneia obstrutiva do sono;
- 32 por cento menos risco de insuficiência cardíaca.
A obesidade pode aumentar o risco de todas essas condições e, em cada caso - com exceção de insuficiência cardíaca - o limiar de significância estatística foi atingido.
O estudo também identificou que parte dos participantes ganhou peso durante o tratamento com GLP-1/GIP. Em comparação com aqueles que perderam menos de 5 por cento do IMC, essas pessoas apresentaram um risco estatisticamente significativo mais alto de apneia do sono e insuficiência cardíaca.
Outro ponto a considerar é que cerca de metade dos participantes interrompeu o tratamento antes de completar o primeiro ano. Ainda assim, essas pessoas permaneceram incluídas na análise estatística final.
Tratamentos como Ozempic e Wegovy também são associados a possíveis benefícios adicionais além do emagrecimento, como proteção contra condições cardíacas. Pelo menos nesta análise, porém, esses benefícios parecem estar fortemente vinculados à redução do IMC, e não apenas ao uso do medicamento em si.
Também é conhecido que muitas pessoas recuperam peso após parar um desses medicamentos GLP-1/GIP. A conclusão destacada pelos autores é que, para haver ganhos de saúde além de um número menor na balança, o tratamento precisa alcançar a perda de peso esperada.
"Neste estudo de mundo real, em que metade dos pacientes descontinuou o tratamento baseado em GLP-1 dentro de um ano após o início, não perder peso esteve associado a piores desfechos clínicos, enquanto reduções maiores estiveram associadas a diminuição dos riscos", afirmam os pesquisadores.
"Esses achados destacam a potencial importância clínica de atingir e manter a perda de peso após o início do tratamento baseado em GLP-1."
A pesquisa foi apresentada no Congresso Europeu sobre Obesidade (ECO 2026).
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