Boa tarde.
Existe uma coisa que é a epidemia de obesidade mórbida que marca, por exemplo, grandes parcelas da sociedade norte-americana e inglesa. Isso, sim, é um tema médico - e ponto final.
Saúde não é estilo: a paranoia estética contra corpos grandes
Outra coisa, totalmente diferente, é a perseguição estética a pessoas grandes, gordas, gordinhas - chame como quiser. É como se o ser humano não fosse naturalmente diverso em tamanho; é como se Rubens tivesse pintado apenas fantasias, e não mulheres de verdade.
Eu não cito Rubens à toa, porque aqui o assunto é estilo, não saúde. Naquele século XVII de Rubens, o padrão de beleza não era a magreza: era a mulher com curvas, ou até plus size, como se diz hoje. E é exatamente disso que se trata quando falamos da narrativa contra o “peso a mais”: trata-se de um estilo, de um modelo de beleza com viseiras que se recusa a enxergar a beleza de uma mulher XXL ou plus size. (O curioso é que a pressão social recai sempre sobre as mulheres; homens gordos como Gérard Depardieu acabam carimbados como charmosos - e não como gordos.)
Eu imaginava que essa disputa já estivesse vencida, mas fica claro que a Geração Z era bastante hipócrita nesse tema e, pela saída fácil do Ozempic, já deixou para trás a atitude body positive. E não é só no consumo de Ozempic: essa geração também puxa o crescimento das cirurgias plásticas em um nível inédito, tanto em volume quanto em exageros, como destaca aqui Luís P. Nunes.
O estudo de Copenhague e a queda do IMC como “verdade”
A tirania da magreza, quando quer parecer inocente, veste jaleco e afirma que “peso a mais” é sempre ruim para a saúde. O problema é que isso não se sustenta, como aponta André Rodrigues em um livro muito interessante, “Números que Contam Histórias”. André chama atenção para um estudo da Universidade de Copenhague, iniciado em 1976 e concluído em 2013, que desmonta por completo a imagem negativa do “peso a mais” - e, no limite, reconstrói (ou até anula) a própria ideia de “ter peso a mais”.
Afinal, o que significa “ter peso a mais”? Pode haver “peso a mais” na subjetividade da autoestima e nos critérios de beleza socialmente fabricados, mas parece não existir “peso a mais” no campo da saúde.
O estudo analisou dados clínicos de 100 mil pacientes acompanhados por 40 anos; durante todo esse período, mediu-se o IMC, índice de massa corporal, tratado como se fosse sagrado. E a conclusão foi justamente o oposto do que se vende por aí: o IMC é quase irrelevante.
Os pesquisadores observaram que pacientes com IMC de 27 (já classificados como “acima do peso”) apresentavam um índice de morte menor do que os pacientes com peso “saudável” (18,5 – 24,9). E mais: a prevalência de diabetes, hipertensão e outros riscos cardiovasculares em pacientes considerados obesos (IMC acima de 30) era igual à dos pacientes dentro dos pesos “normais”. Em outras palavras, o estudo sugere que as pessoas mais saudáveis podem estar, na prática, em percentis mais generosos - mais “gordos” -, o que evidencia que a narrativa dominante está errada.
E não para aí. Há outros trabalhos apontando na mesma direção - muitos outros. O IMC é um termômetro ruim para medir o risco de vida de alguém. Não, não é por esse caminho que se descobre se uma pessoa está mal. Só que essas evidências ficam trancadas no armário da ciência e não chegam ao debate popular e midiático. Não entram na “narrativa” - e nem sempre entram, inclusive, na cabeça de muitos médicos.
Classe social, moralismo e a narrativa do “peso a mais”
Por quê? Porque o que está em jogo é uma construção social: uma construção estética do gosto - como já vimos - e também uma construção moralista. Há quem goste de dizer que alguém é gordo porque é preguiçoso, porque não se dedica, porque não faz exercício, porque não sabe comer. Aquilo que pode ser parte da natureza da pessoa - ter formas generosas - vira defeito de caráter, algo que a meritocracia musculosa se recusa a perdoar.
Além disso, há um marcador de classe aí: as classes mais altas são magras; as mais pobres, mais gordas. A academia é um sinal de classe, o esporte é um sinal de classe, correr maratona é um sinal de classe. Se a pessoa não for magra, quem está na classe média - ou mesmo na classe mais ampla - pode acabar se sentindo “com pele de pobre”. Mas isso tudo são construções sociais, e não verdades médicas, como se vê no livro de Virginia Sole Smith, “Fat Talk”. Se você não quiser ler, ouça este podcast sobre o tema.
IMC, Ozempic e a medicina capturada por hábitos e interesses
Isso dificilmente vai mudar, porque existem setores econômicos poderosíssimos que dependem dessa narrativa falsa, alimentada por culpa e culpabilização. A indústria das academias, a indústria de suplementos, livros de autoajuda e de coaching, a cultura das dietas - isto é, boa parte do lifestyle - e, claro, a gigantesca indústria farmacêutica.
Mas a minha maior dúvida recai sobre os médicos. No podcast Despolariza, dá para ver o CEO de uma grande empresa de saúde, Sworth Health, dizer algo inquietante: muitos cuidados médicos oferecidos à população não derivam de evidência científica, e sim de hábitos que se perpetuam; hábitos que servem para tranquilizar as pessoas, e não para curá-las ou resolver o problema.
O que acontece aqui se parece com isso. Se já está demonstrado que o IMC não é um bom critério diagnóstico, por que tantos médicos seguem insistindo na construção social do “peso a mais” e na centralidade do IMC? Porque médicos não vivem em um Olimpo fora da sociedade. Porque não são imunes a pressões subjetivas e objetivas. Porque podem demorar a ler estudos novos que derrubam práticas antigas. E porque práticas antigas viram hábitos - e hábitos custam a mudar.
Também porque carregam seus próprios preconceitos e, sobretudo, porque no consultório é preciso dizer alguma coisa, depois de meio século repetindo que o IMC era fundamental. Mudar a história contada é difícil. E há ainda um ponto: os pacientes exigem socialmente dos médicos um discurso punitivo e moralista - isso nasce na cultura antes de nascer na medicina. Hoje, muita gente espera dos médicos o que antes esperava dos padres. Sem esse moralismo, sem a certeza de que o médico sempre sabe tudo e nunca diz “não sei”, o contrato social entre nós e os médicos se quebra.
Antes de cientistas, médicos são seres humanos como quaisquer outros: porosos a todo tipo de pressão, começando pela pressão da cultura, da tradição, do “sempre foi assim”. Eles falavam (e falam) em IMC e agora endossam o Ozempic porque é isso que as pessoas - a cultura - demandam.
Essa permeabilidade da medicina à cultura não é novidade. Este livro maravilhoso, por exemplo, lembra que palmada e tapa em crianças ainda tinham aprovação “científica” de médicos nos anos 60. Em outro livro excelente, Susan Sontag mostra como a doença sempre foi alvo das mais absurdas subjetivações pela própria classe médica - a doença como metáfora (moralista) começava nos médicos. Chegou-se a dizer, por exemplo, que câncer de mama surgia em mulheres emocionalmente “secas”.
Mais: médicos levaram muito tempo para aceitar a verdade sanitária descoberta por Florence Nightingale, porque estavam recebendo orientações de uma... enfermeira, de uma mulher.
Talvez por isso séries e filmes que tratam de doença - com ou sem hospital como cenário - sejam tão interessantes: elas investigam a fronteira tensa entre verdade científica e cultura; e os médicos, por serem humanos e não IA, habitam essa fronteira falível. Em “Knick” e em “Angels in America”, vemos as classes altas partindo do pressuposto de que certas doenças de natureza sexual só atingem a “arraia-miúda”, e não os filhos de boas famílias - gonorreia na primeira, Aids na segunda.
Ainda mais relevante para esta conversa é “Dopesick”, que mostra como uma farmacêutica gigantesca, a Perdue Pharma, enganou a sociedade norte-americana - médicos incluídos - com o OxyContin, um opiáceo duas vezes mais potente do que a morfina, mas tratado como se fosse... paracetamol. O resultado foi a monstruosa epidemia de opiáceos que devastou a sociedade norte-americana neste século e só agora começa a recuar.
Por que os médicos caíram nessa? Alguns foram comprados, claro, mas a maioria apenas queria oferecer uma resposta social à dor crônica crescente, que não é só uma realidade dos EUA - também é portuguesa. E não é só sobre dor crônica: existe uma intolerância social à dor, e isso abriu caminho para uma resposta excessiva e criminosa de uma farmacêutica.
Com Ozempic e semelhantes, a lógica é parecida. Os médicos prescrevem aquilo que as pessoas pedem - e esse pedido nasce da cultura, não da medicina.
Um abraço,
Henrique Raposo
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