Você não precisa se privar para manter a saúde - desde que aprenda a escutar o próprio corpo.
No Japão, comer é, antes de tudo, um ritual e um gesto de respeito consigo mesmo: uma forma de valorizar tanto o corpo quanto a natureza que o alimenta. Bem longe da obsessão ocidental por dietas e contagem de calorias, a refeição continua sendo um momento de gratidão, orientado por uma regra bem simples: “Coma até ficar satisfeito em 80%”.
Essa prática é conhecida como hara hachi bu (algo como “a regra do estômago em 80%”), especialmente associada a Okinawa. Trata-se de uma região insular em que a expectativa de vida está entre as mais altas do planeta - e onde pessoas centenárias não são exceção. A lógica por trás do hara hachi bu é direta: comer até alcançar uma saciedade confortável, sem tentar encher o estômago a qualquer custo.
Okinawa, Japão e a regra dos 80%
O que se observa em Okinawa não é um truque, nem uma promessa milagrosa: é um jeito sóbrio de se relacionar com a comida. Em vez de “dar conta” de tudo o que está no prato, o foco é reconhecer o momento em que o corpo já está bem - antes de ultrapassar o ponto.
Esse modo de comer contrasta com hábitos comuns no Ocidente: porções em excesso, refeições engolidas com pressa em frente ao YouTube ou à Netflix, beliscos improvisados entre um e-mail e outro ou no intervalo de entregas por aplicativo.
Hara hachi bu: moderação acima de tudo
O hara hachi bu tem origem em um ensinamento antigo atribuído ao filósofo Confúcio, trazido da China e, mais tarde, absorvido pela cultura japonesa. Na prática, funciona como uma regra moral que não incentiva restrição nem frustração; a proposta é outra: manter-se atento às respostas do organismo enquanto se come.
Quem segue o princípio tende a comer devagar, saboreando o que está no prato e observando a própria sensação de saciedade. É uma maneira de se alimentar que vai na contramão do ritmo acelerado e da distração constante.
Vale notar que o hara hachi bu não é adotado em todo o Japão. Ainda assim, ele aparece com mais força em Okinawa porque combina com o estilo de vida frugal característico da região. Pode até parecer um hábito new-age ou esotérico, mas a ideia é bem menos mística do que parece: publicações científicas já indicaram que ela traz benefícios reais para o organismo.
O que a ciência observa sobre o hara hachi bu
Um exemplo é um estudo publicado em 2007, no volume 1114 da revista Healthy Aging and Longevity: Third International, que mostrou que pessoas que seguem esse princípio tendem a ganhar menos peso ao longo do tempo e apresentam um índice de massa corporal (IMC) médio mais baixo.
Outra pesquisa, mais recente, publicada em 2015 na revista Eating Behaviors, apontou que o hara hachi bu costuma vir acompanhado de comportamentos alimentares mais saudáveis. Entre eles, escolhas marcadas por maior consumo de vegetais e menor ingestão de cereais refinados.
No aspecto psicológico, o hara hachi bu se aproxima bastante de abordagens atuais de alimentação consciente (“mindful eating”). As ideias se tocam: reconhecer sinais de saciedade e separar a necessidade fisiológica da compensação emocional. É o oposto de muitos regimes populares, que impõem regras externas e, por vezes, colocam o organismo contra si mesmo.
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Como adotar o hara hachi bu no dia a dia
Se essa disciplina alimentar chamou sua atenção, a boa notícia é que ela não exige nenhum tipo de rigidez “militar” na forma de comer. O ponto central é reaprender a perceber o corpo - uma reeducação que busca fazer o sistema digestivo e o cérebro “conversarem” melhor. Para se inspirar, você pode aplicar alguns princípios simples.
Comece pelo mais importante: escute a fome de verdade. Antes de comer, pergunte a si mesmo: “Eu estou mesmo com fome?” ou “É tédio/estresse/cansaço que está me levando a comer?”. Isso ajuda bastante a diferenciar a necessidade de uma refeição de verdade da vontade de beliscar.
Depois, coma longe das telas. Deixe o celular de lado (ele não vai sair voando) e dispense a televisão, que seguirá no mesmo lugar. Na hora da refeição, telas são distrações que atrapalham a percepção de saciedade e também a experiência de sabor.
Dê tempo ao ato de comer e procure saborear cada mordida; a mastigação ajuda o corpo a chegar ao estado de saciedade. No Japão, é comum ver pessoas apoiando os hashis entre uma mordida e outra. Você pode copiar a ideia com garfo e faca - um jeito simples de reduzir a velocidade sem precisar “se policiar” o tempo todo.
Durante a refeição, crie mentalmente uma “escala de saciedade”, numerada de 1 a 10. O hara hachi bu, como o próprio nome sugere, convida você a parar por volta do 7 ou 8: um ponto em que a sensação já é de estar alimentado, mas sem desconforto no estômago.
Também vale priorizar a qualidade do que você come, mais do que a quantidade. Uma tigela de arroz, alguns legumes crocantes, peixe ou carne branca: a culinária japonesa costuma representar essa simplicidade com clareza. E isso fica bem distante do nosso repertório francês, no qual muitas refeições transbordam abundância, passam por três pratos fartos e vêm acompanhadas de molhos, vinho e queijo. Esse é o nosso DNA gastronómico - mas não há incompatibilidade entre generosidade e moderação.
Por fim, sempre que der, tente comer acompanhado. As conversas ao redor da mesa naturalmente prolongam a refeição, o que combina com a ideia de calma e presença que o hara hachi bu valoriza: ao trocar ideias, você também dá ao corpo tempo para perceber que já comeu o suficiente.
Sem precisar reproduzir todos os códigos de Okinawa, dá para encontrar no hara hachi bu uma forma diferente de reequilibrar a relação com a alimentação - sem se submeter às pressões estéticas ou nutricionais que saturam o discurso ocidental. Se essa prática continua atual, é porque recoloca a refeição no seu papel essencial: alimentar-se sem excesso e sem tentar compensar qualquer coisa com comida. A saciedade quase virou um conceito esquecido na alimentação moderna, enfraquecida pela disponibilidade permanente de comida, que torna estranha qualquer noção de fome ou de espera. Esse desvio contemporâneo alimenta muitos problemas sociais (obesidade, desperdício de alimentos, perda do vínculo intuitivo com a fome etc.) - males que, não por acaso, são bem menos presentes no Japão.
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