A maioria de nós conhece esse ritual. Você sobe na balança, alguém mede sua altura e, em seguida, um número aparece numa tabela. Esse número é o índice de massa corporal (IMC) e costuma ser usado como um sinal indireto da sua saúde.
Durante anos, profissionais de saúde recorreram a ele para classificar uma pessoa como abaixo do peso, dentro do peso considerado saudável, com sobrepeso ou com obesidade.
O IMC é simples de obter - e esse é um dos motivos pelos quais se popularizou. Só que simplicidade nem sempre é sinónimo de precisão.
Uma nova leva de estudos indica que esse indicador tradicional pode deixar passar algo essencial: onde a gordura se acumula no corpo e se ela já está a causar impactos reais na saúde.
O problema do IMC
O IMC parece fácil de entender porque, de facto, é uma conta direta: relaciona o peso com a altura.
O que ele não consegue distinguir é a origem desse peso - se vem de gordura, músculo, ossos ou água. Por isso, duas pessoas com o mesmo IMC podem ter corpos muito diferentes e riscos para a saúde também muito diferentes.
Alguém com bastante massa muscular pode ser classificado como tendo obesidade mesmo com pouca gordura em excesso. Já outra pessoa pode aparecer na faixa “saudável” do IMC, mas carregar gordura prejudicial em profundidade no abdómen.
“O IMC é problemático porque não mede especificamente a gordura corporal e, em vez disso, reflete o peso corporal total, que inclui músculo e osso”, disse o Dr. Brian P. Lee, hepatologista e especialista em transplante de fígado na Keck Medicine.
“Assim, uma pessoa musculosa pode ter um IMC muito alto e não ter excesso de gordura, enquanto alguém com pouca massa muscular pode ter um IMC normal, mas ter excesso de gordura a causar problemas de saúde.”
Uma ferramenta de saúde com 200 anos
O IMC não nasceu como um exame médico voltado para decisões individuais. A sua origem está no trabalho de Adolphe Quetelet, matemático belga, na década de 1830.
Na época, ele aplicou a fórmula para observar padrões gerais em grandes grupos populacionais - não para avaliar uma pessoa específica sentada num consultório.
Com o passar do tempo, sistemas de saúde passaram a adotar o IMC como métrica por ser rápido e barato. Bastava medir altura e peso.
Sem necessidade de exames de imagem, análises laboratoriais ou equipamentos especiais, ele tornou-se prático. Ao mesmo tempo, essa praticidade contribuiu para que fosse visto como mais determinante do que realmente é.
Onde a gordura se instala dentro do corpo
O organismo não reage da mesma forma a todo tipo de gordura. A gordura logo abaixo da pele, chamada gordura subcutânea, contribui para o contorno corporal.
Quando aparece em quantidades elevadas, ela ainda pode influenciar a saúde, mas não costuma ser o principal ponto de atenção em muitas doenças associadas à obesidade.
Já a forma mais preocupante é a gordura visceral. Ela fica mais profunda, na região abdominal, envolvendo órgãos como fígado, pâncreas e intestinos.
A gordura visceral pode libertar substâncias inflamatórias e interferir na forma como o corpo lida com açúcar, colesterol e pressão arterial.
É por isso que alguém pode ter aparência magra e, ainda assim, estar exposto a riscos importantes.
Muitas vezes, a gordura visceral não é evidente no espelho. E pode não alterar o IMC o suficiente para acender um alerta. Mesmo assim, dentro do corpo, ela pode estar a provocar danos.
Uma medida melhor de saúde
Em 2025, um grupo internacional de especialistas em obesidade propôs uma nova maneira de definir obesidade.
A proposta, divulgada pela Comissão Lancet de Diabetes e Endocrinologia, dá menos ênfase ao peso isolado e passa a olhar com mais cuidado para a gordura corporal e os efeitos sobre a saúde.
O modelo utiliza medidas centradas na cintura, como circunferência da cintura, relação cintura-quadril e relação cintura-altura.
Dentro desse enquadramento, a pessoa precisa apresentar excesso de gordura em pelo menos duas dessas medidas e, além disso, mostrar sinais de que essa gordura já está a afetar o organismo.
Entre esses sinais podem estar problemas articulares, sobrecarga para o coração, alterações no metabolismo ou outras questões de saúde relacionadas à obesidade.
Em termos simples, a nova definição troca a pergunta: em vez de “quanto a pessoa pesa?”, passa a ser “o excesso de gordura corporal está a prejudicar esta pessoa?”.
A obesidade “oculta” aparece
Investigadores da Keck Medicine quiseram entender o quanto essa abordagem atualizada se afastaria do que o IMC aponta.
Para isso, analisaram dados de cerca de 5.600 adultos na Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição (NHANES) e compararam os resultados pelos dois critérios.
Os números chamaram a atenção. Uma em cada quatro pessoas com IMC na faixa considerada saudável encaixou-se na definição mais recente de obesidade clínica.
Entre quem era classificado como com sobrepeso pelo IMC, cerca de metade cumpria os novos critérios de obesidade.
Na prática, isso sugere que muitas pessoas que parecem “bem” no gráfico do IMC podem já ter problemas de saúde associados ao excesso de gordura.
“Muitas pessoas presumem que, se o IMC indica que não têm obesidade, não precisam se preocupar com os muitos problemas de saúde ligados à obesidade”, disse o Dr. Lee.
“Os nossos achados mostram que milhões de americanos podem já ter impactos na saúde relacionados à obesidade e podem estar a deixar de receber intervenções de saúde necessárias”, acrescentou Lee.
O tratamento de saúde depende do IMC
Não se trata apenas de um debate sobre nomes e categorias. Em muitos locais, decisões de tratamento passam pelo IMC.
O acesso a medicamentos para perda de peso, cirurgia ou acompanhamento médico específico pode exigir que a pessoa ultrapasse uma determinada linha de IMC.
Mas o que acontece com alguém que tem IMC normal e muita gordura visceral? É possível que essa pessoa não receba apoio cedo o suficiente.
O médico pode não a identificar como alguém de alto risco. Regras de cobertura podem não incluir o cuidado. E o problema pode avançar antes mesmo de ser reconhecido.
O excesso de gordura corporal está associado a doença cardíaca, diabetes tipo 2, pressão alta, doença do fígado e alguns tipos de cancro. Identificar o risco mais cedo dá mais tempo para agir.
O tamanho da cintura revela mais
Uma mensagem clara desses dados é que uma fita métrica pode mostrar o que a balança não consegue.
O tamanho da cintura e medidas relacionadas ajudam a apontar risco “escondido”, especialmente quando o IMC transmite uma sensação enganosa de segurança.
“A boa notícia é que a obesidade pode ser tratada”, disse o Dr. Lee. “Seja por mudanças no estilo de vida, medicação ou ambos, temos formas eficazes de reduzir o excesso de gordura corporal e diminuir o risco de problemas de saúde futuros.”
“Quanto mais cedo identificarmos pessoas em risco, maior a chance de melhorar a saúde e a qualidade de vida no longo prazo.”
Um retrato mais completo da saúde
É provável que o IMC continue presente em consultórios por muito tempo. Ele é conhecido, fácil de aplicar e serve como triagem inicial. Mas não deveria encerrar a avaliação.
Para enxergar a saúde de forma mais completa, é importante considerar medidas de cintura, distribuição de gordura, sinais clínicos e a condição geral da pessoa.
A balança informa quanto um corpo pesa. Ela não mostra onde a gordura está escondida nem o que ela está a causar.
Para muita gente, essa diferença pode determinar quando o risco é percebido, quando o tratamento começa e por quanto tempo a saúde se mantém.
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