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Álcool, FGF21 e o desejo por comida salgada: o que a Universidade de Sydney descobriu

Homem jovem pegando chips em uma tigela com outra tigela de petiscos e taça de vinho em mesa na cozinha.

A maioria das pessoas conhece a cena: depois de algumas bebidas, de repente o que parece mais apetitoso é algo salgado - salgadinhos, batatas fritas, pizza ou um hambúrguer da madrugada. É fácil colocar isso na conta de uma queda de autocontrolo ou de inibições mais baixas.

Só que novas evidências indicam que pode haver um mecanismo bem mais biológico por trás. O principal responsável pode ser um hormônio.

Um estudo da Universidade de Sydney detalha como o álcool pode empurrar o apetite na direção de comidas salgadas e “saborosas” (do tipo junk food) e por que esse padrão, aos poucos, pode contribuir para o aumento da circunferência abdominal.

O hormônio por trás dos desejos

O protagonista é um hormônio chamado FGF21. Em condições normais, ele aumenta quando o corpo está com pouca proteína disponível e atua no cérebro para estimular a procura por alimentos ricos em proteína.

O que o álcool parece fazer é acionar o mesmo hormônio, enganando o organismo e fazendo-o reagir como se precisasse de mais proteína - mesmo quando isso não é verdade.

“Many people will recognize the experience of having a few drinks and suddenly craving something salty, like chips, French fries, pizza or other savory foods”, disse a autora principal, Dra. Amanda Grech.

“Now we have a better understanding of the hormonal dynamic at play, which may be driving overconsumption of ultra-processed foods”, afirmou.

Por que o salgado vence o bolo

O FGF21 promove dois efeitos simultâneos: ele intensifica a vontade de sabores salgados, “umami”, e, ao mesmo tempo, reduz a motivação por açúcar.

Por isso, a atração da madrugada quase sempre aponta para batatas e salgadinhos, não para bolo. A fome pede algo salgado e marcante, e não doce.

Ao longo da maior parte da história humana, isso fazia sentido. Sabores mais “carnudos” e salgados eram um sinal confiável de proteína. Seguir esse gosto ajudava a obter a proteína que o corpo realmente buscava.

O truque do “isco” de proteína

A comida moderna quebrou essa associação. Hoje, muitos petiscos salgados têm gosto “saboroso” por causa de aromatizantes e realçadores como o glutamato monossódico, mas trazem pouquíssima proteína de verdade.

Os pesquisadores chamam esse tipo de item de “iscas de proteína”. Eles têm gosto de proteína e acionam o apetite por proteína - mas não conseguem saciá-lo.

O resultado é que você continua comendo à procura daquela sensação de satisfação e, no processo, acaba ingerindo muito mais gordura, carboidratos e calorias totais.

E isso não se limita a snacks industrializados. Alimentos gordurosos, como carne sem aparar, barriga de porco ou pato consumido com pele, podem produzir efeito parecido: combinam sabor salgado e intenso com muita gordura e relativamente pouca proteína.

“Cravings for chips with a drink, a pizza at the end of a big night out, or a fry-up the next morning may be driven by the way alcohol alters the body’s regulation of appetite, particularly for protein”, disse o Professor David Raubenheimer, autor sênior do estudo.

Desejos que continuam no dia seguinte

O momento em que isso acontece ajuda a explicar o “prato de frituras” do dia seguinte. Em testes anteriores, o FGF21 subiu em cerca de 15 minutos após beber e permaneceu elevado por algumas horas.

Depois de consumo pesado de álcool, ele ficou alto por muito mais tempo. Pessoas que beberam bastante na Oktoberfest ainda apresentavam níveis aumentados três dias depois. Em outras palavras, o desejo pode sobreviver à noite de bebida.

A sua dieta muda tudo

Isso também ajuda a esclarecer um quebra-cabeça antigo: durante anos, estudos sobre álcool e ganho de peso chegaram a conclusões inconsistentes.

O novo trabalho sugere que a resposta depende menos da bebida em si e mais do contexto alimentar em volta.

“Alcohol has different effects on total energy intake depending on the dietary environment, particularly whether diets are dominated by minimally processed foods or ultra-processed savory foods”, disse o Professor Stephen Simpson, coautor do estudo.

Quando a base da alimentação é composta por comida de verdade, a vontade por sabor “salgado e carnudo” tende a levar a fontes reais de proteína e o efeito acaba, em grande parte, compensado.

Mas quando a dieta está cheia de “iscas”, o mesmo impulso empurra para comer cada vez mais, numa busca por proteína que nunca chega.

A geografia dos desejos

Há até um indício geográfico que combina com a hipótese. Em países onde o sabor salgado costuma significar proteína de forma confiável, como a França, as taxas de obesidade são menores.

Já na Austrália, onde o sabor salgado prevê proteína só em cerca de um quarto das vezes, as taxas de obesidade estão entre as mais altas do mundo. O padrão encaixa-se bem na teoria.

O que os dias de bebida mostraram

A equipe analisou dados de inquéritos alimentares australianos com mais de 9.000 adultos.

Nos dias em que bebiam, as pessoas consumiam mais comida salgada, e o maior aumento de calorias vinha de snacks processados com baixo teor de proteína.

Cada dose padrão esteve associada a mais consumo de alimentos salgados e a menos consumo de alimentos doces. De forma reveladora, os mesmos participantes comiam mais itens salgados nos dias com bebida do que nos dias sem álcool - um vínculo difícil de ignorar.

Tenha lanches melhores à mão

A solução proposta é direta: se o corpo está pedindo proteína, ofereça proteína de verdade.

“If you choose to drink, it’s worth being mindful of this hormonal interplay”, disse Raubenheimer.

“Having protein-rich whole foods readily available can help steer you away from ultra-processed foods. Think roasted chickpeas, smoked salmon, lean cold meats, prawns or oysters.”

Manter alimentos integrais e satisfatórios por perto não “desliga” a vontade associada ao álcool, mas responde a ela de modo honesto. Assim, da próxima vez que a bebida puxar você para os salgadinhos, vale lembrar: o seu corpo não está exatamente a pedir salgadinhos.

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