Antidepressivos, sedativos e outros princípios ativos psicoativos vão parar no esgoto depois do uso - e estão longe de sumir por completo durante o tratamento. Um grupo de pesquisa da Johns Hopkins University mostrou agora que certos fungos conseguem degradar esses medicamentos no lodo de esgoto antes que o material seja aplicado em áreas agrícolas e volte a circular no ambiente.
Medicamentos no lodo de esgoto - um risco pouco percebido
Estações de tratamento modernas removem grande parte do que preocupa no esgoto: bactérias, vírus e diversos contaminantes diminuem bastante. No fim do processo, porém, sobra um resíduo sólido rico em nutrientes: o lodo de esgoto, chamado no meio técnico de “biossólidos”. Em muitos lugares, ele é usado como fertilizante e condicionador de solo na agricultura.
O ponto crítico aparece justamente aí. Muitos compostos de antidepressivos, indutores do sono e outros fármacos psicoativos têm alta estabilidade química. Isso significa que, durante a etapa convencional de limpeza, eles se degradam pouco. O resultado é que resíduos persistem, se acumulam no lodo e acabam chegando ao campo junto com esse material.
"Traços de antidepressivos em fertilizantes já não são um cenário de ficção científica, e sim um problema ambiental real."
Pesquisas anteriores já indicam que plantas podem absorver alguns medicamentos quando o solo recebe lodo de esgoto ou quando a irrigação é feita com água contaminada. Embora ainda não exista uma comprovação direta de dano à saúde humana, mesmo concentrações baixas podem afetar organismos aquáticos e, no longo prazo, alterar ecossistemas.
Por que estações convencionais esbarram em limites
A limpeza clássica do esgoto foi desenhada sobretudo para reduzir patógenos e controlar nutrientes como fósforo e nitrogênio. Moléculas orgânicas complexas, típicas de muitos medicamentos atuais, tendem a ser estáveis demais - e variadas demais - para serem eliminadas de forma consistente nesse modelo.
Além disso, cada novo medicamento traz uma estrutura química diferente, com rotas de degradação próprias e possíveis produtos intermediários. Até hoje, não há um sistema que remova, com a mesma confiabilidade, todo esse conjunto de substâncias - pelo menos não na rotina operacional de estações de grande escala.
- Patógenos: costumam ser bem reduzidos
- Metais pesados: podem ser amplamente controlados com técnicas específicas
- Fármacos complexos: frequentemente permanecem em níveis residuais
Foi esse gargalo que levou as pesquisadoras e os pesquisadores da Johns Hopkins University a buscar uma alternativa biológica complementar, com potencial de ser barata, resistente a variações e viável de ampliar.
Fungos de podridão-branca como “demolidores” químicos
O foco recaiu sobre os chamados fungos de podridão-branca. Na natureza, eles conseguem decompor madeira dura porque quebram a lignina - o componente que dá rigidez e resistência ao tronco. Para isso, liberam enzimas altamente reativas.
O diferencial é que essas enzimas não são muito “seletivas”: em vez de atacar apenas um composto específico, conseguem reagir com uma gama ampla de moléculas complexas. Para o fungo, essa versatilidade ajuda a degradar diferentes tipos de madeira; para a ciência, ela é valiosa porque o mesmo conjunto de enzimas pode atingir também resíduos de medicamentos.
Duas espécies bem conhecidas no centro do estudo
A equipe selecionou duas espécies comuns, conhecidas inclusive por quem coleta cogumelos de forma amadora:
- Cogumelo-ostra (Pleurotus ostreatus)
- Trameta-versicolor (Trametes versicolor), também chamada de “Turkey Tail”
Ambas são amplamente estudadas, estão bem distribuídas e crescem com facilidade sobre substratos sólidos - o que as torna candidatas naturais para atuar diretamente sobre lodo de esgoto.
Como foi o experimento com lodo de esgoto e fungos
No estudo, o grupo usou lodo de esgoto de uma estação municipal. Esse material foi enriquecido propositalmente com nove substâncias psicoativas diferentes, incluindo antidepressivos usados com frequência, como citalopram e trazodona.
Na sequência, os fungos foram cultivados diretamente nesse substrato por até 60 dias. Ao mesmo tempo, ocorreram testes de comparação em culturas líquidas, sem lodo, para avaliar o quanto resultados típicos de laboratório se afastam de condições mais próximas do mundo real.
Com espectrometria de massas de alta resolução, o time acompanhou por semanas como as concentrações dos fármacos mudavam e quais produtos de degradação surgiam.
Resultados em resumo
| Parâmetro | Resultado |
|---|---|
| Número de princípios ativos testados | 9 medicamentos psicoativos |
| Degradados por cada fungo | 8 de 9 princípios ativos |
| Remoção após 60 dias | cerca de 50 % até quase completa |
| Maior desempenho | cogumelo-ostra com, em parte, > 90 % de degradação |
| Número de produtos de degradação identificados | > 40 |
O aspecto central é que os fungos não apenas “retiveram” as substâncias: eles realmente as transformaram quimicamente. Foram formadas moléculas menores e modificadas, por exemplo por quebra de ligações ou pela adição de oxigênio.
As novas substâncias são mesmo menos perigosas?
Um cuidado essencial nesse tipo de solução é evitar que um contaminante se converta em vários produtos potencialmente ainda mais tóxicos. Por isso, o grupo aplicou um módulo de avaliação da agência ambiental dos EUA, a EPA, para estimar a toxicidade dos produtos gerados.
A leitura do resultado é cautelosamente positiva. Segundo a modelagem, a maioria dos produtos identificados tende a ser menos tóxica do que os medicamentos originais. Ou seja, os fungos não estão só “redistribuindo” a contaminação: tudo indica que também estão atenuando o problema ao modificar as moléculas.
"Os fungos atuam aqui como um filtro biológico que não apenas retém, mas também desativa quimicamente substâncias complexas."
Ainda assim, não é um tema fechado. Antes de qualquer uso amplo, seria necessário mapear melhor as rotas de degradação, incluindo efeitos de longo prazo sobre organismos do solo e sobre a água subterrânea. Mesmo com essas pendências, o estudo aponta um caminho: sair da simples transferência do poluente e avançar para uma desintoxicação real.
Da caixa de laboratório à estação de tratamento - quão viável é?
O termo técnico para introduzir fungos de forma dirigida no processo é “micoaumentação” (mycoaugmentation). A proposta é inserir culturas fúngicas como etapa adicional dentro de fluxos já existentes, sem exigir a construção de plantas totalmente novas.
Os fungos de podridão-branca têm vantagens claras para isso:
- Crescem em materiais sólidos como cavacos de madeira ou o próprio lodo.
- Exigem relativamente pouca energia - não dependem de um sistema altamente complexo.
- São comuns na natureza, o que tende a facilitar aceitação e multiplicação controlada.
Na prática, estações poderiam adotar uma etapa extra em que o lodo, antes de ser destinado ao uso agrícola, fique por semanas colonizado por fungos. Outra possibilidade é integrar o método a processos já usados, como compostagem ou secagem.
O que isso significa para a Europa e para a região de língua alemã
Na Alemanha e em outros países da União Europeia, o lodo de esgoto vem sendo cada vez mais regulado. Em alguns casos, ele já é encaminhado para incineração, com o objetivo de recuperar fósforo e eliminar contaminantes. Em outras regiões, ainda é aplicado em áreas agrícolas.
Etapas de tratamento baseadas em fungos podem virar uma opção adicional, especialmente onde o uso agrícola do lodo continua ou onde novos modelos de recuperação de nutrientes estão sendo implementados. O conceito conversa bem com economia circular, já que se apoia em processos biológicos e demanda uma tecnificação moderada.
Para companhias de saneamento e prefeituras, a questão no horizonte é quais combinações entre tecnologia e biologia entregam o melhor resultado: ozônio, carvão ativado, filtração por membranas - e, possivelmente, reatores com fungos.
Termos importantes, explicados rapidamente
Biossólidos / lodo de esgoto
Biossólidos é o nome dado ao resíduo sólido e rico em nutrientes que sobra após o tratamento do esgoto. Ele contém matéria orgânica, microrganismos e nutrientes ligados, como nitrogênio e fósforo. Em muitos países, é utilizado como fertilizante ou condicionador de solo.
Fungos de podridão-branca
Fungos de podridão-branca são decompositores de madeira capazes de degradar lignina. Esse processo costuma deixar a madeira com aparência mais clara e fibrosa - daí o nome. As enzimas desses fungos são vistas como ferramentas versáteis para tecnologias ambientais, inclusive para degradar corantes, pesticidas e também medicamentos.
Medicamentos psicoativos
Essa categoria inclui, entre outros, antidepressivos, ansiolíticos, indutores do sono e alguns analgésicos que atuam diretamente no sistema nervoso central. Eles são formulados para produzir efeitos perceptíveis em doses pequenas - uma característica que também pode torná-los problemáticos no ambiente.
Oportunidades, limites e perguntas em aberto
A abordagem com fungos evidencia o quanto sistemas biológicos podem ser úteis. Ao mesmo tempo, persistem dúvidas práticas relevantes: culturas fúngicas manteriam desempenho estável em plantas grandes, com carga variável? Como evitar a disseminação indesejada de esporos? E como o custo se compara às técnicas já consolidadas?
De forma realista, a tecnologia com fungos não deve transformar estações de tratamento da noite para o dia. Ainda assim, pode se tornar um componente para reduzir melhor o coquetel de resíduos de medicamentos, químicos de cosméticos e outros micropoluentes orgânicos - sobretudo onde soluções baratas e de baixo consumo energético são prioridade.
Para o público, uma regra permanece igual: medicamentos não devem ser descartados no vaso sanitário nem na pia. O correto é seguir a orientação local - em geral, usar pontos de coleta em farmácias ou descartar no lixo comum quando essa for a recomendação. Quanto menos princípio ativo chega ao esgoto, menos o sistema - seja com fungos, seja com tecnologia - precisa remover depois.
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