Novo visual inspirado na SU7 Ultra, motor de 1.200 W, suspensões com duplo braço oscilante, ecrã TFT a cores, modo “Boost”, compatibilidade com Apple Find My e até carga programável… A Xiaomi caprichou nas mudanças na Electric Scooter 6 Ultra. Trata-se de um modelo premium que mira claramente o topo entre os patinetes urbanos abaixo de 800 euros. Depois de quase dois meses de testes, eis o nosso veredito.
Será que alguém mexeu com o orgulho da Xiaomi? Partindo do princípio de que a marca acompanha o que publicamos, no ano passado soámos o alarme no teste da Electric Scooter 5 Pro. Embora o veículo tivesse agradado no geral, apontámos que a Xiaomi parecia demasiado acomodada.
Mesmo dominante em França - onde quase um quarto dos 4 milhões de patinetes em circulação são Xiaomi - a marca dava sinais de estagnação. Enquanto isso, a Segway-Ninebot arriscava mais e entregava uma lufada de ar fresco. Não por acaso, elegemos sem hesitar a Max G3 E como o melhor patinete “grande público” abaixo dos 800 euros em 2025.
Para deixar de sentir a concorrência a soprar no cangote, a Xiaomi trouxe “artilharia pesada” no MWC 2026, em Barcelona. Em vez de três lançamentos como no ano anterior, apresentou nada menos que cinco modelos. E, sobretudo, revelou um novo modelo Ultra - uma categoria que estava esquecida desde a Scooter 4 Ultra, em 2023.
A 799 euros, a Scooter 6 Ultra chega ao asfalto francês com ambições enormes. Para medir essas ambições e perceber se a Xiaomi consegue voltar ao trono este ano, rodámos com ela durante quase dois meses.
Um verdadeiro SUV de duas rodas - e em amarelo, sem vergonha
Mesmo que você ainda não conheça a SU7 Ultra, o carro elétrico esportivo da Xiaomi que tem feito a Europa salivar, a Scooter 6 Ultra já entrega um “aperitivo” do conceito. O amarelo é o mesmo, bem chamativo; as linhas são igualmente tensas, quase agressivas; e a silhueta, retangular e com presença. Isso, por si só, é uma virada importante, já que o visual das scooters da Xiaomi vinha há três anos preso a um desenho demasiado conservador.
O impacto visual é acompanhado pelas medidas. Ela tem 138 cm de comprimento, 60 cm de largura e 135 cm de altura. Para comparar, é 18 cm mais longa do que a 4 Ultra e, com 33,6 kg, pesa 9 kg a mais. Sim: a Xiaomi Electric Scooter 6 Ultra fica perto dos 34 kg. Vamos voltar a esse ponto adiante.
Na construção, há um detalhe relevante: é a primeira vez que a Xiaomi projeta e monta internamente um modelo Ultra do início ao fim. As linhas anteriores eram fabricadas pela Navee a partir de um caderno de requisitos bem definido. E o resultado desta “estreia” convence?
No conjunto, sim. A estrutura passa confiança - na prática e também na sensação. A pintura aguentou dois meses de uso sem reclamar: nada de riscos ou marcas dignas de nota. É um patinete que parece pronto para uma condução mais “forte”. O único senão fica por conta das manetes de travão, que apresentam uma folga leve e um plástico que destoa do padrão do resto.
Do deck ao ecrã (passando pelo guiador), a Xiaomi muda a abordagem
Se a Scooter 6 Ultra é tão pesada, há um motivo: a Xiaomi respondeu a uma procura crescente por conforto acima de tudo. E isso aparece logo nos primeiros metros.
A plataforma (deck) é ampla, com 19,5 cm de largura. Além disso, na parte traseira há uma elevação suave, lembrando o kicktail de um skate. Assim, é fácil encontrar uma posição confortável, inclusive para quem calça 45. Para quem faz trajetos longos, apoiar o pé de trás nessa elevação vira um alívio - todos conhecemos a sensação de perna a adormecer depois de 20 minutos a rodar.
E não é só o deck que melhora o conforto. Ao abandonar o guiador reto das gerações anteriores, a Scooter 6 Ultra passa a usar um guiador curvado nas extremidades. Com 60 cm de largura, ele se mostra mais apropriado para sessões longas, porque a postura fica menos “travada”.
Outro destaque inconfundível no guiador: um ecrã TFT de 3 polegadas que, finalmente, é a cores. Já era hora. Ele é legível na maioria das condições e mostra, num golpe de vista, velocidade, autonomia restante, hora… um padrão que a Segway já oferecia em modelos topo de linha desde 2025.
E, como a Xiaomi claramente não quer mais ficar atrás em recursos, também entrou na onda de um comando de quatro direções no lado esquerdo do guiador. Com esse mini “painel”, dá para trocar o modo de velocidade, acionar os piscas, mexer nas definições do ABS e do controlo de tração, além de travar o motor. Tudo isso pode ser personalizado pelo app Xiaomi Home.
Conforto de primeira e um novo modo “Boost”
Subir na Xiaomi 6 Ultra significa aceitar ficar a 26 cm do chão - 3,2 cm acima da 4 Ultra. E, dito de forma direta, a essa altura a sensação de “mandar” na via é viciante. Ainda mais porque, além da posição elevada (boa para o campo de visão), as suspensões com duplo braço oscilante trabalham de forma exemplar.
Para relembrar, esse tipo de suspensão usa dois braços articulados por roda, que absorvem impactos de forma independente. Na prática, paralelepípedos, buracos e pequenos meios-fios são engolidos sem drama pela Scooter 6 Ultra. De quebra, os braços mantêm-se firmes, sem trepidações exageradas.
Claro: não é um modelo off-road. Uma Navee XT5, por exemplo, vai estar mais à vontade em trilhas e caminhos mais irregulares. Mas, dentro de um uso urbano, a Xiaomi 6 Ultra está completamente no seu habitat.
E não é só nas imperfeições do asfalto que ela não se intimida: subidas íngremes também não assustam. Entre 500 W de potência nominal, picos de até 1.200 W, e uma retomada forte no modo Sport, a condução fica decididamente esportiva - sem virar rodeio, porque a aceleração é bem gerida. No início, ela sobe de forma progressiva; depois de estabilizar, fica mais incisiva. O resultado é chegar a 25 km/h em cerca de 6 segundos.
E dá para ir ainda além com o recém-chegado modo “Boost”. Depois de ativá-lo no Xiaomi Home e acioná-lo por uma combinação de botões, ele permite fazer 0 a 25 km/h em 2,6 segundos. É divertido e dá aquela dose de adrenalina. Por segurança, não é algo para usar sem pensar: a recomendação é reservar para arrancadas em retas bem livres, em subida ou no fim de uma descida.
Também vale apontar a chegada de uma nova opção de acelerador: uma roldana rotativa, além do gatilho clássico para o polegar. Essa ideia de “duas formas de acelerar” já aparece em alguns modelos da Niu. No papel, parece ótimo; no uso, porém, obriga a deslocar a mão para alcançá-la, o que pode prejudicar o equilíbrio em certos momentos. Preferência é preferência, mas por aqui o gatilho de polegar continua a ser a escolha.
Em contrapartida, porte e potência exigem algumas concessões. A primeira delas é o raio de viragem limitado. Seja numa curva mais rápida, seja numa manobra a baixa velocidade, é preciso antecipar. Considerando a proposta e o preço, ter alguma experiência no asfalto antes de escolher este modelo parece um requisito bem razoável.
Equipamento completo, mas travagem ainda pode melhorar
Com uma máquina dessas nas mãos, a pergunta é inevitável: dá para se sentir totalmente seguro na Scooter 6 Ultra? Sem discussão, sim. Para rodar à noite ou no fim do dia, o farol dianteiro ilumina o suficiente para antecipar obstáculos. Para ser visto, os piscas integrados nas manoplas chamam atenção o bastante. E, ao travar, a luz de stop pisca automaticamente.
Em ajudas à condução, a Scooter 6 Ultra traz o pacote completo: TCS para ajudar a manter a aderência em piso escorregadio e E-ABS para evitar o bloqueio das rodas numa travagem de emergência.
Já a travagem - historicamente um ponto fraco nas scooters premium da Xiaomi - melhora, mas sem alcançar a excelência. A 25 km/h, o modelo Ultra para em aproximadamente 7 metros. É bom, sem ser impressionante. O lado positivo é que, mesmo nas travagens de emergência que fizemos, nunca tivemos a sensação de que iríamos “passar por cima” do guiador.
Para isso, a 6 Ultra usa dois travões a disco mecânicos (um dianteiro e um traseiro). Pelo preço, discos hidráulicos teriam sido bem-vindos - por dois motivos: normalmente entregam mais “mordida” e melhor progressividade, e alguns rivais, como a Joyor T10, já oferecem isso por um preço ligeiramente inferior.
Um aplicativo que finalmente chega perto do melhor nível
O app Xiaomi Home está mais completo em 2026 e finalmente reduz a distância para a Segway. Bloqueio do motor, registo de percursos, definições do farol e da recuperação de energia continuam presentes. E, este ano, aparecem pequenas novidades úteis, sobretudo ligadas à bateria.
As antigas barrinhas pouco precisas ficam para trás: agora o app mostra a percentagem exata de carga restante e também uma estimativa de quilometragem. Além disso, dá para programar a carga para horários de tarifa reduzida e limitar o nível máximo de carregamento para preservar a bateria ao longo do tempo.
Para fechar, a Xiaomi decidiu, enfim, tornar o modelo compatível com a geolocalização Apple Find My. Já passou da hora - e, com o que a concorrência vem a oferecer, ignorar isso em 2026 teria sido quase imperdoável.
Autonomia correta; com carregador padrão, a recarga não termina nunca
Se existe um dado difícil de cravar num patinete, esse dado é a autonomia, porque ela depende de vários fatores: peso do condutor, estilo de condução, clima, vento, relevo… Por isso, os números de fábrica - aqui, 75 km - não devem ser tomados como verdade absoluta.
No nosso cenário, num percurso de 11 km sem grande desnível e com 80 kg na balança, conseguimos fazer quatro dias de ida e volta casa/escritório antes de cair para algo em torno de 10%. E isso com condução esportiva e, na maior parte do tempo, acelerador no máximo. Pela nossa experiência, essa utilização aponta para uma autonomia real entre 40 e 45 km.
O problema aparece na recarga. Com o carregador padrão incluído na caixa, são necessários nada menos que 10 horas para ir de 0 a 100%. É tempo demais. É verdade que existe um carregador rápido.
Com ele, o tempo cai para cerca de 3h30 - uma diferença enorme. O porém: é preciso gastar mais uns 60 euros para comprar esse acessório. Fica a sensação de que faltou um meio-termo, porque o carregador rápido acaba a parecer obrigatório e precisa entrar desde o início no orçamento.
O fim do uso intermodal para patinetes?
É um facto: os patinetes topo de linha estão a ficar mais pesados. A Segway-Ninebot Max G3 E marca 24 kg, a Navee ST3 Pro fica em 25,3 kg. E, com a 6 Ultra, chega-se a 33,6 kg - mais do que a maioria das bicicletas elétricas urbanas.
Diante disso, ainda dá para falar em patinete “multimodal” acima de 25 kg? Colocar um equipamento desses num TER, no metrô ou no trem vira praticamente um esporte de combate. Na prática, esse tipo de uso acaba restrito aos modelos de entrada, perto dos 300 euros - e nem todos. A prova está no próprio catálogo 2026 da Xiaomi: a Scooter 6 “clássica”, primeiro modelo da linha a 399 euros, já pesa 24 kg.
Resultado: se há três andares sem elevador para enfrentar, é melhor ter braços fortes e coluna em dia. Para guardar, conte com garagem, cave/depósito ou um bicicletário. Dobrada, a 6 Ultra ainda mede 138 cm de comprimento por 64,5 cm de altura. Não é algo que se enfia debaixo de uma mesa “num estalar de dedos”.
Ainda assim, a Xiaomi acertou num ponto essencial - e que deve ganhar importância no futuro: a distribuição de massas. Aqui, a 6 Ultra vai bem. Depois de dobrada e segurada no braço, ela não pende para um lado, o que facilita manobrar em corredores, passar por portas ou colocá-la num elevador. Em contrapartida, é uma pena não haver uma pega integrada de verdade para transporte. Com 34 kg, segurar apenas pela coluna de direção não é o ideal.
Preço e disponibilidade
Apresentada no MWC de Barcelona no fim de fevereiro de 2026, a Xiaomi Electric Scooter 6 Ultra já está à venda por 799 euros, numa única cor: amarelo. O preço continua coerente com o nível de equipamento. Como é habitual na Xiaomi, promoções aparecem com frequência e derrubam o valor final - vale ficar de olho.
O que achámos do patinete Xiaomi Electric Scooter 6 Ultra
Depois de anos a viver do que já tinha, a Xiaomi acelera de verdade com a nova Scooter 6 Ultra. O modelo combina um design fora do padrão, um conforto impressionante e uma condução agradável para quem já tem alguns quilómetros de experiência. Some a isso um pacote de equipamentos completo e um aplicativo finalmente atualizado, e temos o que por vezes faltava às scooters da marca: versatilidade real para o dia a dia.
Ainda assim, este não é um patinete para iniciantes. O raio de viragem reduzido exige prática. Além disso, entre os 34 kg e a autonomia real de 40 a 45 km, ele faz mais sentido para quem pretende substituir uma bicicleta ou cumprir um trajeto diário fixo. Usá-lo apenas de vez em quando parece pouco lógico - assim como comprá-lo sem elevador (para quem mora em apartamento) ou sem um espaço adequado para guardar.
Mesmo com melhorias claras e bem-vindas, a Scooter 6 Ultra não é perfeita. Os travões mecânicos poderiam ter mais “mordida”, e um sistema hidráulico seria mais apropriado. E, principalmente, a carga padrão é tão lenta que chega a ser quase impensável não comprar logo o carregador rápido vendido à parte. De todo modo, a Segway - que deve apresentar os seus modelos 2026 em setembro - vai precisar, mais uma vez, elevar o nível.
Xiaomi Electric Scooter 6 Ultra
Preço: 799 euros
Nota geral: 8.8
Design e fabricação - 9.0/10
Condução e conforto - 9.5/10
Segurança e equipamentos - 8.5/10
Autonomia e carga - 8.0/10
Relação qualidade-preço - 9.0/10
Gostamos
- Boa qualidade de construção
- Conforto fora de série (deck largo, suspensão dupla com braços oscilantes, pneu de 10 polegadas)
- Muitas novidades (botão multifunção, ecrã a cores, modo Boost...)
- Potência suficiente para todo o tipo de trajeto urbano
- Autonomia satisfatória
Gostamos menos
- Peso muito elevado (33,6 kg)
- Travagem boa, mas com margem para evoluir
- Tempo de carga padrão longo demais
- Carregador rápido opcional
- Raio de viragem limitado
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