Testosterona, esteroides, hormonas de crescimento… e US$ 1 milhão em jogo. Os Enhanced Games - os “Jogos” em que a dopagem vira regra e que são bancados por magnatas da tecnologia - começam neste fim de semana em Las Vegas.
Enhanced Games em Las Vegas: dopagem permitida e recompensas altas
A proposta não tem rodeios: os Enhanced Games funcionam como uma versão dos Jogos Olímpicos em que a dopagem não só é permitida, como também incentivada. Lançado em 2023, o projeto terá agora a sua primeira edição, neste fim de semana, em Las Vegas. Cerca de 50 atletas vão competir em três modalidades: natação, sprint e halterofilismo.
A única restrição: substâncias aprovadas pela FDA
Há, porém, uma exigência a cumprir: tudo o que for consumido precisa estar aprovado pela Food and Drug Administration (FDA), a agência norte-americana responsável por autorizar alimentos e medicamentos. Na prática, é um filtro muito mais permissivo do que os padrões antidopagem tradicionais.
Com isso, a premiação também sobe: os atletas podem receber US$ 250.000 ao vencer uma prova, e US$ 1 milhão ao superar um recorde do mundo. O dinheiro é suficiente para atrair desportistas com dificuldades financeiras - mas não apenas eles. Entre os nomes anunciados estão Thor Björnsson, ator islandês conhecido por interpretar a Montanha em Games of Thrones, e o nadador britânico Ben Proud, medalha de prata em Paris 2024.
Proud diz isso sem hesitação: ele precisaria de treze anos a conquistar títulos mundiais para ganhar o equivalente ao que uma única competição pode render ali. Já o sprinter norte-americano Fred Kerley tem um objetivo ainda mais ambicioso: bater o recorde mundial dos 100 metros de Usain Bolt.
Uma longa lista de substâncias autorizadas
Para elevar o rendimento, os atletas recorrem a uma ampla lista de substâncias: testosterona, esteroides anabolizantes, hormona de crescimento, EPO, estimulantes… Vale notar que foi implementado um protocolo médico individualizado, montado durante um estágio de treino nos Emirados Árabes Unidos. Ainda assim, não há como saber exatamente o que cada pessoa toma, já que os organizadores alegam sigilo médico.
Nesse cenário, a queda de recordes parece quase inevitável. O nadador grego Kristian Gkolomeev já tinha feito uma marca inferior ao recorde mundial dos 50 m livre num evento de exibição em 2025, com apoio de substâncias e de um fato integral proibido no desporto convencional.
O problema é que nenhuma federação nacional ou internacional reconhece essas marcas. Os organizadores, por sua vez, afirmam que o sistema de cronometragem e a infraestrutura do evento estão ao nível das grandes competições mundiais.
Bilionários da tecnologia e o negócio do antienvelhecimento
É claro que um evento assim tem um apelo evidente para quem o financia - e não se trata de qualquer grupo. Entre os apoiadores aparecem Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir, Donald Trump Jr., além de várias figuras da tech libertária. O objetivo, porém, vai muito além do desporto: os Enhanced Games funcionam sobretudo como uma montra comercial para vender peptídeos, testosterona e produtos antienvelhecimento diretamente ao consumidor. O verdadeiro modelo de negócios é o mercado da longevidade.
Isso alimenta uma onda de críticas. A Agência Mundial Antidopagem (AMA) e o Comité Internacional Olímpico falam em traição aos valores do desporto, enquanto médicos chamam a atenção para os riscos concretos dessas substâncias. Entre eles estão problemas cardíacos, renais e psiquiátricos, além de efeitos a longo prazo que a ciência ainda tem dificuldade de medir.
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