Você carrega no corpo, todos os dias, 100 mil bilhões de minúsculas “baterias”. Um detalhe com potencial para acender a imaginação de engenheiros de computação e pesquisadores de IA.
Em um artigo publicado em 12 de dezembro de 2025 na revista PNAS Nexus, cientistas da Universidade de Houston e da Universidade Rutgers (Estados Unidos) analisaram como funcionam as células do organismo, com foco especial nas membranas lipídicas que as envolvem.
O papel das membranas lipídicas no funcionamento das células
Essas membranas formam uma camada protetora que ajuda a célula a manter sua integridade diante de agressões externas (como agentes patogênicos). Além disso, elas filtram informações moleculares recebidas pelo organismo e também regulam as trocas metabólicas.
Os autores propõem ainda algo além dessa função de “barreira”: as próprias ondulações naturais dessas membranas poderiam ser convertidas em eletricidade, de modo semelhante ao que acontece em um gerador. Trata-se de uma fonte de energia pouco considerada até aqui e que, no futuro, poderia contribuir para a criação de dispositivos eletrónicos bioinspirados.
Flexoeletricidade: quando o movimento vira tensão
Se as células conseguem produzir esse tipo de energia, o mecanismo por trás disso seria a flexoeletricidade - um fenómeno físico em que a eletricidade surge a partir de uma deformação geométrica.
Para visualizar, pense na membrana celular como uma folha A4: ao torcer e curvar rapidamente, ocorre uma separação de cargas elétricas entre o lado interno e o lado externo da curva.
No nível celular, isso não é um evento raro. As membranas estão o tempo todo ondulando por causa do calor e da atividade de proteínas que as atravessam. Ao se deformarem milhares de vezes por segundo, elas passam a atuar como nanogeradores eletromecânicos. Como descrevem os pesquisadores: “Demonstramos aqui que essas flutuações ativas, quando acopladas à propriedade universal da flexoeletricidade, podem gerar tensões transmembranares e até orientar o transporte de íons”.
Tensão gerada: até 90 mV e por que isso importa
Com essas membranas, as células conseguiriam captar a energia de que precisam para sustentar a própria atividade biológica. Pelos cálculos da equipa, as micro-ondulações poderiam produzir uma diferença de potencial de até 90 mV (milivolts).
Embora pareça pouco quando comparado a uma tomada (cerca de 2 500 vezes menor), esse valor é enorme na escala celular. Seria suficiente para disparar o impulso nervoso de um neurónio ou controlar a contração de uma fibra muscular.
Uma nova fonte de inspiração para a IA e a tecnologia
A descoberta interessa diretamente a áreas ligadas à tecnologia. A forma como as células recolhem energia pode, um dia, orientar o desenvolvimento de uma nova geração de materiais inteligentes e de inovações biomiméticas.
Um exemplo mencionado é pensar em redes de inteligência artificial mais eficientes em consumo energético (um dos seus principais pontos fracos hoje), substituindo transístores de circuitos por nanogeradores bioinspirados capazes de se autoalimentar com as vibrações do ambiente.
Essa lógica também poderia, em tese, ser aplicada a processadores, que exigem muita energia para tratar informação. Seria o oposto do que acontece nas células, que lidam com tarefas complexas em parte aproveitando a flutuação das próprias membranas. Na visão dos autores: “A investigação das dinâmicas eletromecânicas em redes de neurónios pode construir uma ponte entre a flexoeletricidade molecular e o processamento complexo de informação”.
Limites atuais e a necessidade de testes in vivo
Apesar do entusiasmo, é importante manter os pés no chão: usar a flexoeletricidade como fonte de energia para alimentar sequer um microssistema elétrico ainda não está ao nosso alcance.
Por enquanto, trata-se de um modelo teórico, que ainda precisa ser testado in vivo para se confirmar se é realmente válido. Ainda assim, o trabalho não perde relevância: é o primeiro a mostrar que as células dependem tanto da química orgânica quanto da mecânica para gerar o seu fluxo de energia.
Talvez, no futuro, existam smartphones ou relógios alimentados por “baterias biológicas”, mas ainda vai demorar muito para que isso se torne realidade.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário