Às vezes, as lembranças mais improváveis aparecem justamente quando não deveriam. Quão fora de hora? Tentem soltar uma piada para um policial durante uma blitz às 4h da manhã.
O capítulo mais recente dessa série “ideias aleatórias em situações inadequadas” - em que eu assino o roteiro e também protagonizo - aconteceu na semana passada.
Não foi no meio de uma blitz, mas sim durante a apresentação técnica do novo motor 1.5 TSI do Volkswagen Golf (que em breve vou publicar aqui na Razão Automóvel).
Enquanto um dos engenheiros da Volkswagen detalhava as maravilhas desse novo conjunto, minha cabeça - por motivos totalmente fora do meu controle - puxou da gaveta um mito antigo.
O mito de que Henri Toivonen, em 1986, foi mais rápido no Circuito do Estoril ao volante do seu Lancia Delta S4 do que os carros de Fórmula 1 nesse mesmo ano. Segundo consta, o tempo de Toivonen colocaria o Delta S4 no sexto lugar da grelha de partida do GP de Portugal.
É aquele tipo de história que circula pela internet e que… ah!, claro: agora eu sei por que isso me veio à cabeça no meio da apresentação. O Alfredo Lavrador, que é o equivalente nacional ao Jeremy Clarkson - só que sem falar bobagem - estava comentando sobre a potência dos carros de rali e… pronto.
Do nada, lembrei do mito do Toivonen e comecei a narrar tudo para ele: “Você sabia que o Toivonen, blá, blá(…)”, até o momento em que ele me cortou. “O quê?! Um carro de rali a partir de 6º lugar numa grelha da Fórmula 1? Tu és doido”, disse o Alfredo com aquela naturalidade que só quem convive com ele entende.
É verdade, é mentira ou eu sou mesmo doido?
Sobre a última opção, o Alfredo até tem um ponto - de vez em quando minha ECU dá umas panezinhas; afinal, como diz o ditado, “de génio e de doido todos temos um pouco”.
Sobre o resto, como vocês vão ver nas próximas linhas, a hipótese de o Toivonen ter “voado” no Estoril não é tão absurda assim.
Eu já tinha ouvido tantas vezes que o Toivonen teria dado um baile na turma da Fórmula 1 que, até o Alfredo me provocar, eu nunca tinha parado para checar se isso era mesmo verdade.
Vamos ser honestos: a ideia de um piloto ser mais rápido num carro de rali do que num Fórmula 1 é tão romântica, épica e coloquem aqui o adjetivo que vocês quiserem que quase dá culpa duvidar. Foi exatamente isso que o Alfredo fez - e ele fez muito bem…
Notebook no colo, xícara de café do lado (às vezes eu nem bebo, mas gosto do cheiro. Manias…), Google aberto, e bora separar mito de fato.
Preparados para um viagem de 30 anos? Vamos a isso…
Bem-vindos aos loucos anos 80
É difícil encarar os anos 80 sem sentir um misto de admiração e nostalgia.
Admiração por a humanidade ter sobrevivido a regulamentos de rali que liberavam carros com mais de 600 cv e a carros de Fórmula 1 com mais de 1000 cv - e, de quebra, a outras maravilhas, como a ausência de informação nutricional nas embalagens - viva gordo, morra jovem ou seria viva rápido, morra jovem? Tanto faz.
E nostalgia porque, convenhamos… às vezes a ignorância é uma bênção. Do mesmo jeito que eu curto batata frita com sal sem dó, também curtia assistir ao espetáculo daqueles carros sem peso na consciência. Tenho certeza de que, se vocês olharem com atenção para aquela imagem, vão encontrar seu pai ou seu avô no ápice das curvas fechadas da Serra de Sintra. Ele vai negar…
Brincadeiras à parte, vamos ao que interessa. Henri Toivonen realmente andou com o Lancia S4 no Estoril em 1986? Sim. Quando eu finalmente achei uma fonte confiável sobre o assunto, o café já estava frio.
Ninni Russo, diretor da equipe Lancia no Mundial de Rali nos anos 80, confirmou isso ao site da Red Bull.
É possível um WRC ser tão rápido como um F1?
Ninni Russo ainda se lembra daquele teste com a clareza possível depois de mais de 30 anos. Em entrevista à seção de automobilismo da marca de energéticos, Russo afirmou: “Parece incrível, mas o fosso que separava os F1 e os WRC naquela época não era tão grande como hoje”.
De fato, hoje o cenário é outro, e a gente acaba forçando um sorriso amarelo quando passa um hatch compacto do segmento B “apimentado”. São fortes, entregam show, mas… um Yaris, sério?!
Naquela época, o sorriso não era amarelo; era aberto, verdadeiro. Era o sorriso de quem tinha acabado de ver passar um protótipo de verdade - o melhor que a engenharia conseguia oferecer. Carros que, de fato, faziam a gente sonhar. Tentem sonhar com um Polo. Sério: ninguém sonha com um Polo nem com um Fiesta.
Mas eu ainda não respondi à pergunta de 1 milhão de euros:
É possível um WRC ser tão rápido como um F1?
Seguindo os regulamentos, não. Agora, em um teste privado, talvez. Não era nenhum bicho de sete cabeças elevar a potência do Delta S4 para 700 cv aumentando a pressão do turbo. E, além disso, estamos falando do Henri Toivonen: um dos pilotos mais talentosos, destemidos e rápidos que já se sentou entre o banco concha e o volante de um carro.
Para o Russo, se existia alguém no mundo capaz de um feito desse tamanho, esse alguém era o Toivonen.
“Na minha opinião, o Henri foi o piloto que melhor interpretou o S4. Era um carro muito difícil. E atenção! Não estou a dizer que os restantes pilotos não tinham feeling com o S4. Mas o Henri tinha algo mais, tinha um feeling especial.”
Um piloto que, infelizmente, acabou vítima desse mesmo feeling. Um acidente, poucos meses depois, tirou sua vida e os títulos mundiais que ele certamente conquistaria. Na imagem em baixo, Ninni Russo a falar com Henri Toivonen:
O mito começa a ganhar forma
Até aqui, o placar está: Guilherme Costa 1 – 0 Alfredo Lavrador. Temos o piloto, temos o carro, e temos praticamente todos os ingredientes para continuar acreditando nesse mito delicioso.
Então vamos seguir com as declarações do Ninni Russo.
“Algumas semanas antes do Rali de Portugal, houve um teste no Estoril. Foi um teste privado e efetivamente o Henri fez um bom tempo - é difícil dizer agora que tempo foi esse em concreto. Mas era um tempo que o colocava facilmente entre os 10 primeiros nos testes da Fórmula 1 que tiveram lugar no Estoril duas ou três semanas antes”.
Espera… testes? Mas não era na classificação do GP de Portugal?! Porque uma coisa é teste, outra é treino classificatório. Eita… Guilherme Costa 1 – 3 Alfredo Lavrador.
Como escreveu o Redbull.com, passaram-se 30 anos (eu tinha acabado de nascer). E como “quem conta um conto acrescenta um ponto”, com o tempo começaram a misturar testes de Fórmula 1 com sessões de classificação durante um Grande Prêmio. Não é a mesma coisa.
Ao que tudo indica, o Toivonen e o Delta S4 não tinham, de fato, chance contra um Fórmula 1. Ainda assim, a história continua sendo apaixonante. E vou dizer mais: aqui na Razão Automóvel eu tenho o dever de falar a verdade - mas em conversa entre amigos esse dever já não é o mesmo.
Então sigam meu exemplo. Da próxima vez que falarem de carros com os vossos amigos, continuem a alimentar o mito de que no Grande Prémio de Portugal de 1986, da segunda linha da grelha, podia ter arrancado um carro de ralis.
Se seus amigos forem como os meus, quando o assunto é automóvel todo mundo aumenta mais do que o outro (não, Sancho, ninguém acredita que o teu Mercedes 190 ainda dá 200km/h), então… por favor, espalhem esse mito para todo lado.
Quanto aos meus amigos, mentirosos ou não, não os trocava por nada. Nem aqueles que me chamam doido.
Fonte: Redbull.com
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