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Roberto Martínez e Cristiano Ronaldo na contramão em Portugal

Treinador português observando jogador Cristiano Ronaldo em campo durante partida de futebol.

Clichês que acertam

É verdade que os lugares-comuns podem soar como falta de esforço de quem os repete. Ainda assim, vale lembrar que eles só viraram chavões porque, muitas vezes, funcionam - e não há motivo para tratá-los como pecado. Por isso, cabe aqui a velha imagem do motorista cidadão que segue pela rodovia e se revolta porque, aos seus olhos, todo o resto do mundo é que está na contramão.

Também já passamos por situações em que perdemos a paciência com alguém que, mesmo tomado por boas intenções, insiste em trajetos que acabam sendo nocivos, fazendo pouco caso dos avisos ao redor. Para usar outro clichê, “de boas intenções o inferno está cheio” - e a teimosia, somada a isso, costuma embaralhar o juízo. Em outras palavras: nadar contra a corrente nem sempre é um gesto nobre de resistência; às vezes, é só teimosia cega. Dirigir pelo lado errado é coisa que D. Quixote faria, com a mesma fúria com que investia contra moinhos de vento.

Portugal, Roberto Martínez e Cristiano Ronaldo na contramão

Saindo do abstrato e indo para o terreno que nos une (e nos separa), o futebol, fica a dúvida sobre quem está apontando para o lado errado: Roberto Martínez ou Cristiano Ronaldo? Ou será que os dois seguem na contramão, embalados por histórias vindas de longe, num ambiente em que valores morais acabam perdendo para os valores pecuniários? Essa leitura conspiratória tanto pode explicar muita coisa quanto não explicar nada.

O que a minha modesta capacidade de análise consegue reter, depois do duelo entre Portugal e a República Democrática do Congo, é a frase que o jornal britânico "The Independent" cravou com precisão sobre o maior jogador português de todos os tempos: "Dez homens e uma estátua".

Recordes, poder e a dificuldade de ceder

Em certos momentos, dá a impressão de que quem dá as cartas é o atleta, e não o treinador. Se for assim, talvez o técnico não disponha do mesmo pulso que Fernando Santos mostrou, há quatro anos, ao colocar o capitão no banco. O ponto central, até que se prove o contrário, é ver o próprio Cristiano Ronaldo relutando em tomar uma atitude madura: admitir que ainda pode ser útil à seleção - só que não como se ainda tivesse 30 anos, começando como titular e sustentando 90 minutos.

É possível que ele siga sem perceber que está indo na direção oposta, porque, para ele, é como se a vida inteira seguisse o seu sentido. Ele tem os recordes, tem um aeroporto com o nome dele, tem dinheiro deste mundo e do outro, tem uma casa nova tão grande que mal parece uma casa. Nessa lógica, ele estará sempre certo; e quem o questionar será apenas invejoso ou ingrato.

Sobre ele, Chico Buarque não cantará: "Morreu na contramão atrapalhando o tráfego".

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