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O percurso escolar dos craques da seleção: memórias de professores de Cristiano Ronaldo a João Neves

Homem observa crianças jogando futebol em quadra vista pela janela de sala de aula.

Cristiano Ronaldo já estava no 5.º ano quando fazia questão de levar ao professor o recorte de um jogo em que tinha sido o melhor marcador; João Neves virou o menino querido de todo mundo; Gonçalo Ramos ainda deve uma explicação à professora de Francês. Diogo Dalot foi aluno de excelência, Pedro Neto mandava no intervalo, Rúben Dias era "corretíssimo" e fazia de tudo para não chamar atenção. E Bruno Fernandes acabou encarando uma pergunta que, com o passar dos anos, só dá para rir. O caminho escolar de vários destaques da seleção é contado por quem os viu crescer mais de perto.

Cristiano Ronaldo no Funchal: futebol acima de tudo

Três décadas se passaram desde que o padre João Francisco Dias, na época professor de Religião e Moral na Escola Básica Gonçalves Zarco, no Funchal (Madeira), deu de cara com um "miúdo simples, mas bondoso", claramente mais ligado ao futebol do que aos cadernos. "Nunca largava a bola, andava sempre com ela debaixo do braço", lembra.

Mesmo assim, aquele menino que viria a chegar ao topo do Mundo não se destacava especialmente em sala. "Não era grande aluno, mas também não era um miúdo indisciplinado." Com 30 anos de distância, a lembrança já perdeu alguma precisão, mas há uma cena que o sacerdote guarda com nitidez: "Lembro-me que um dia chegou à aula antes do tempo e me veio mostrar um recorte de jornal em que se podia ler que ele tinha sido o melhor marcador de um jogo qualquer. Como que a dizer: "Eu posso não ser bom na escola, mas nisto sou"." Para ele, o esporte era o que realmente ocupava a cabeça; ir às aulas era, sobretudo, uma obrigação. E havia até uma “logística” familiar por trás: ele tinha uma tia trabalhando no bar da escola e era ela quem pegava no pé para ele não faltar.

Antes disso, no pré-escolar e no 1.º Ciclo, entre 1990 e 1995, Cristiano Ronaldo frequentou o Externato de São João, também no Funchal. As duas religiosas que o acompanharam nesse período (educadora e professora) já faleceram, e por isso o que restou vem do que elas próprias contavam - hoje partilhado pela diretora atual, Deolinda Mendonça.

"As irmãs contavam que ele já tinha gosto pelo futebol, mesmo quando não tinha bola arranjava sempre forma de jogar, nem que fosse com uma bola de trapos." Diziam ainda que era muito inquieto, porém sem causar problemas e com bom comportamento. E a diretora foi conferir nos arquivos: "Há uns tempos lembrei-me de ir ver os registos e confirmei que era um aluno assíduo, que quase não tinha faltas." Além do futebol, fazia teatro na escola - e, segundo ela, chegou a representar São João Batista. Antes de morrerem, as irmãs ainda chegaram a se emocionar com o sucesso de CR7: "É o meu menino na televisão, é o meu menino", repetiam.

Seixal, Benfica e o percurso escolar na seleção: João Neves e Gonçalo Ramos

Com os jogadores mais novos, há professores que ainda guardam lembranças bem vivas - e cheias de carinho. É o caso de Teresa Morgado, professora de Francês na Escola Secundária Dr. José Afonso, na Arrentela (Seixal), há mais de 30 anos, acostumada a receber alunos que passam pela formação do Benfica.

Entre tantos, um a marcou de um jeito especial: "Ainda hoje digo a todos os alunos e a todos os meus colegas que o João Neves é o meu menino. Sempre tive um carinho muito especial para ele." E ela explica por quê. Muitos viviam longe da família e, mesmo assim, entregavam tudo: eram trabalhadores e aplicados. Ela se lembra de olhar para João Neves, tão pequeno, e pensar: "Como é que este miúdo aguenta?" Para ele, porém, parecia estar sempre tudo bem.

Teresa Morgado recorda ainda uma entrevista dele quando era criança, em que ele dizia que podia ser pequeno e não ter muita força física, mas que a inteligência também contava. "Esse é o João. É das pessoas mais bonitas que já passaram pela minha vida. Pela educação, pelo respeito, pela empatia. Quando o chamava à atenção por algo menos bom, ele aceitava com humildade e procurava absorver ao máximo."

Com Gonçalo Ramos, atacante da seleção e hoje no PSG, a relação com notas tinha um traço diferente: era mais "competitivo". "Queria sempre mais, apesar de ser aluno de quatros nunca estava satisfeito. Volta e meia questionava porque é que não tinha tido a cotação total numa dada resposta, mas sempre simpático e educado, houve sempre uma boa relação. Eram miúdos preocupados, um pouco faladores, mas sempre muito respeitadores." Sérgio Grosa confirma o perfil: "Era um rapaz muito responsável, muito calmo e ponderado. Uma vez apareceram-me lá a pedir ajuda, porque o Gonçalo tinha partido um incisivo, e ele estava ali como se nada fosse, muito tranquilo."

Ainda assim, a escola importava. "A dada altura, teve uma lesão e fez avaliação teórica. Então foi à sala dos professores entregar-me um trabalho de várias páginas, inteiramente manuscrito. Lembro-me de lhe dizer: "Ó rapaz, tiveste uma trabalheira a fazer isto, podias ter feito no computador!"." O esforço, claro, foi valorizado. Para Sérgio Grosa, tanto Gonçalo Ramos quanto João Neves foram alunos fora de série - e, ao mesmo tempo, discretos: "E que passavam despercebidos. Não andavam pela escola a dizer que jogavam no Benfica ou onde quer que fosse."

Teresa Morgado também descreve Gonçalo como "um miúdo muito simpático, educado e bem formado", mas deixa uma bronca bem-humorada: "Então perguntaram-lhe o que sabia dizer em francês e foi dizer baguette? Já disse há pouco tempo aos pais dele que nunca falámos de baguettes nas aulas e que estou muito zangada com ele. Teve quatro comigo e vai dizer que só se lembra de baguette?", reclama, com afeto.

No caso de Tomás Araújo, zagueiro do Benfica que também foi convocado para o Mundial, a memória da professora de Francês é vaga: "Era mais apagadito, cumpria, era correto, mas não me recordo de nada em especial." Isabel Correia, que foi diretora de turma dele no 9.º ano, reforça: "Era um rapaz muito reservado, nunca deu problemas, era suficientemente preocupado com as notas, mas muito caladinho e discreto."

Pela mesma escola também passaram Gonçalo Guedes, atacante de 29 anos formado no Benfica e atualmente na Real Sociedad, e João Félix, um dos “meninos-prodígio” do Seixal que hoje, aos 26, joga com Cristiano Ronaldo no Al-Nassr, da Arábia Saudita. O professor de Filosofia Jorge Marta deu aula aos dois, embora sem grandes lembranças. "Lembro-me que eram alunos muito discretos e cuja grande preocupação era o futebol. O João era mais fechado, mais tímido, nada exuberante, mas era um bom aluno, mais preocupado, tinha bastante facilidade. O Gonçalo não tinha nada de tímido, era mais brincalhão, às vezes distraído, não se preocupava tanto, nem era muito envolvido. Pelo menos é a memória que tenho."

Da emoção de Leão ao inglês macarrônico de Conceição

Para professores efetivos em escolas com parcerias com clubes, encontrar jovens promessas da base vira quase rotina. Agostinho Silva, professor de Educação Física na Escola Secundária de Alcochete há 13 anos, já perdeu a conta dos atletas da formação do Sporting que cruzaram o caminho dele.

Um desses nomes foi Rafael Leão, atacante de 27 anos que se formou nos "leões" e hoje joga no AC Milan, da Itália. Eles se encontraram no Ensino Secundário, quando o jogador fez o curso profissional de técnico de apoio à gestão desportiva. "Era cumpridor, em relação ao que era expectável dele. Nunca foi um miúdo complicado, pelo contrário, era excelente na relação connosco." Mas houve um ponto de virada: "Mas, a dada altura, percebeu que ia ser craque e preocupava-se mais com o futebol do que em ter sucesso na escola. Eu lembro-me de dizer aos meus colegas: como é que vocês querem convencer um miúdo que já ganha mais do que nós todos juntos que a escola é que é fundamental?".

Mesmo assim, Leão parecia filtrar o que considerava útil. "Por exemplo, eu dei um módulo desse curso, de Higiene e Traumatologia, que focava a forma como os atletas se devem cuidar, e ele foi o aluno que mais participou." Segundo o professor, Rafael também rendia muito bem "tudo o que não obrigava a preparação e a estudo". E participava com entusiasmo em atividades com crianças do 1.º Ciclo e idosos. Ele se lembra até de um momento particularmente marcante: "Recordo-me até de se ter emocionado numa dessas situações, quando recebemos a visita de uma CERCI." No retrato final, fica a imagem de um garoto especial: "Era um miúdo espetacular, muito humano, pacato e atencioso, que fazia sempre tudo com um sorriso na cara."

Nuno Mendes, lateral de 23 anos do PSG, também estudou no mesmo agrupamento, mas ainda no Ensino Básico. Foi ali que conheceu Ana Serafim, professora de Educação Física e diretora de turma dele no 7.º ano. "Era um miúdo muito tímido e discreto. Tanto é que fui à procura nos meus arquivos e encontrei uma mensagem da professora de Matemática na altura que dizia: "O Nuno é delicado e calmo"."

O desempenho escolar, porém, tinha complicações logísticas. "Na altura já tinha muitas ausências por causa do futebol. E ainda não tínhamos a Unidade de Apoio ao Alto Rendimento na Escola [UAARE], era tudo muito arcaico a esse nível." Ela se lembra da ansiedade de alguns colegas professores com tantas faltas e com a recuperação das matérias. E diz que, na época, respondia com franqueza: "Deixem-se disso, ele não tem de saber muito de Matemática nem de Físico-Química, tem de saber minimamente o Português, o Inglês e o Francês, porque vai ser um grande cromo da bola." Apesar das ausências, ele passou de ano - com duas negativas. Na Educação Física, no entanto, era fora do comum: "Já se destacava pela velocidade e pela técnica, mas sempre foi humilde. Era incapaz de rematar à baliza para magoar. Às vezes estava em frente a baliza e dava a bola para que outros marcassem."

Ana Serafim também foi professora de Francisco Conceição no 8.º ano, quando o atacante - hoje na Juventus - ainda vestia a camisa do Sporting. "Foi sempre um bom aluno e queria ter bons resultados, era um miúdo efusivo e questionador, educado mas ambicioso e competitivo nas notas." A prova são as notas, apesar de algumas faltas: "Tanto que, apesar de já ter algumas faltas, acabou o ano com quatros e cincos, incluindo a Físico-Química e a Francês."

Anos depois, nos 10.º e 11.º anos, Helena Silva, professora de Inglês no Colégio Júlio Dinis, no Porto, o pegou numa fase em que ele já "não se interessava muito pela escola". "Notava-se que o pensamento dele estava no futebol. Faltava muito às aulas e não se empenhava muito. Tinha um bocado aquela postura de estrela e lembro-me de os colegas já terem algum deslumbramento por ele, de dizerem que parecia que tinha ímanes nos pés." E o inglês não ajudava: "Como tinha estado uns anos na Bélgica, o forte era o francês. Então era habitual misturar o francês com o inglês. Ou falar inglês com pronúncia francesa." Mesmo assim, ela resume o trato: "Mas um miúdo afável e de bom trato".

"Mas tu achas que vais ser o Cristiano Ronaldo?"

Por mais cedo que seja, a convivência do 1.º Ciclo muitas vezes fica marcada para sempre. É assim que Conceição Carvalho, professora que teve Vitinha - hoje meio-campista consagrado do PSG - no 4.º ano, na Escola EB/JI de Bairro (Vila das Aves, Santo Tirso), ainda o descreve com riqueza de detalhes.

"Era muito engraçado, muito bem-disposto, lembro-me que contava anedotas e tudo. Também era carinhoso e trabalhador, um bom aluno, muito educado, portava-se bem." Mesmo com treinos diários naquela época, ela diz que ele era exemplar: "nunca faltava, nunca se queixava, era espetacular". E reforça que não é por ele ser famoso hoje: "Não é por ser o Vitinha, era mesmo. Um miúdo simples e acessível, muito virado para a família, que estava à vontade em qualquer situação." Há quatro anos, ao voltar à terra para inaugurar um campo com o seu nome, ela garante ter visto a mesma pessoa: era "o mesmo miúdo" simples e bondoso.

Maria João Covinha, professora do 1.º Ciclo que acompanhou Pedro Neto - hoje atacante do Chelsea - na EB 1 da Abelheira, em Viana do Castelo, também não esquece aqueles anos. "O Pedro é difícil de esquecer." Ela o descreve como pequeno, mas cheio de energia, sem parar um segundo, com personalidade forte. "Era uma criança extremamente feliz e um líder de recreio, que levava a bola, que fazia as equipas, que marcava bem a sua presença." Além disso, era o engraçadinho do grupo e querido por todos.

Quando assumiu a turma no 2.º ano, Maria João foi alertada: seria "um miúdo que não era fácil, que era o rebelde da escola, que era difícil controlá-lo". Mas ela conta que acabou encontrando o caminho: "Puxei pela mais-valia daquela energia, que era o facto de ele gostar de trabalhar." Como aprendia com facilidade, precisava estar sempre ocupado. Ela o transformou no braço-direito: distribuir livros, recolher trabalhos, apagar o quadro. "E consegui levá-lo com facilidade." Fora da escola, havia até um ritual para manter a disciplina: "Quando saíamos da escola, andava religiosamente de mão dada comigo, que era a maneira de o controlar, daí que tenhamos ficado com uma relação próxima." Tão próxima que, recentemente, ela foi a Londres com a família, assistiu a um jogo do ex-aluno e ainda conseguiu passar um tempo com ele: "Foi muito prazeroso", conta.

Em muitos casos, porém, o contato se perde - mesmo quando o carinho continua. José Costa, professor de Educação Física e durante anos coordenador do Desporto Escolar na Escola Básica D. Domingos Jardo, em Sintra, é um exemplo. Ele conheceu Nélson Semedo, hoje lateral do Fenerbahçe, quando ainda era "um jovem franzino e tímido", embora "sempre muito educado".

Desde cedo, apesar de um contexto familiar e social difícil no bairro de Mira-Sintra, o professor percebeu um garoto "geneticamente dotado e muito motivado para a prática desportiva". Semedo brilhava no atletismo pela velocidade e resistência, mas o futebol já era o ponto forte, por ser "muito bom tecnicamente e inteligente a ler o jogo". Mais tarde, quando ele já se destacava no Benfica e José Costa conheceu Rui Vitória (na época técnico das "águias") no curso de treinadores, fazia questão de avisar: "Cuidado com o Nelsinho, Rui!". Depois, perderam o contato, mas o orgulho ficou.

A aptidão física acima da média desde cedo aparece como ponto em comum em vários nomes da seleção. Carlos Bouças, professor de Educação Física de Francisco Trincão na Escola Frei Bartolomeu dos Mártires, em Viana do Castelo - e hoje diretor desportivo do Vianense - diz que isso já era evidente: "Já nessa altura se destacava, em termos de coordenação motora e disponibilidade para as modalidades coletivas e para o atletismo." E, além dos skills "acima da média", ele era um "menino muito tranquilo e simpático, humilde e com padrões de educação muito elevados".

Se no Ensino Básico conciliar já era difícil, no Secundário a margem ficava ainda menor. Margarida Abreu, professora de Português que deu aulas a Rúben Dias no 12.º ano, na Escola Secundária da Amadora, viu isso de perto. "Na altura já jogava no Benfica, tinha treinos bidiários, foi o ano em que ganharam a Youth League", então sobrava pouco tempo para estudar. Mesmo assim, ela descreve disciplina e método: "era organizado e disciplinado, nunca faltava, os pais queriam mesmo que tivesse a escola completa e notava-se que ele fazia um esforço acrescido, mesmo tendo optado pela área mais difícil, de Ciências e Tecnologias".

Ela lembra ainda a postura do zagueiro: "Estava sempre atento aos trabalhos e às aulas, tinha uma postura corretíssima, lembro-me de um dia me vir pedir desculpa muito atrapalhado por ter faltado uma única vez, porque teve de ir assinar o contrato profissional." E há um contraste curioso com a figura de hoje em campo: apesar da presença forte atual, ele era "um miúdo muito reservado e low-profile, que, apesar de já dar nas vistas por ser muito alto, procurava, sempre que possível, esconder-se dentro do carapuço". O vínculo continua: "Continua a falar comigo nas redes sociais e a mandar-me mensagens nos meus anos."

Francisco Rey, professor aposentado que deu Educação Visual e Tecnológica à turma de Bruno Fernandes na EB 2/3 de Gueifães, na Maia, também mantém troca de mensagens com o ex-aluno. "Ainda há pouco tempo, quando apanhou o avião para os EUA, fiz questão de lhe desejar boa sorte", conta. Sobre o interesse de Bruno pela disciplina, ele é sincero: "Não vou dizer que era muito interessado na minha disciplina. Mas foi sempre um miúdo respeitador, que se fosse chamado à atenção pedia desculpa." No retrato escolar, era "um aluno mediano, não porque não tivesse capacidades para mais, mas porque não estava para aí virado. Andava mais preocupado com o futebol." E, ainda assim, com discrição: "Mas foi sempre muito low-profile, na maneira de vestir e tudo."

Cristina Almeida, professora de Inglês de Bruno Fernandes no 7.º, 8.º e 9.º anos, confirma esse perfil. "Era um miúdo queridinho, muito caladinho e bem-comportado, que nunca dava uma resposta torta, que falava connosco sempre a olhar para o chão, que pedia desculpa por tudo." Às vezes, o futebol invadia a rotina: "Às vezes punha-se a jogar e não se lembrava que a aula já tinha começado. Depois vinha pedir desculpa muito aflito, com a bola debaixo de braço." Mas a lembrança mais pitoresca veio numa dessas ocasiões. "Mas tu pensas que vais ser o Cristiano Ronaldo?", perguntou-lhe. Hoje, já aposentada, ela reconhece, entre risos, que não podia ter errado mais o alvo.

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