O torneio de futebol mais popular do mundo também se torna, pelas semanas seguintes, um dos maiores reservatórios virais do planeta. Motivo de sobra para alarmar epidemiologistas, que sabem que uma celebração desse tamanho pode terminar perfeitamente no pronto-socorro.
Depois de levar um forte carrinho por causa da pegada de carbono associada ao seu torneio, a FIFA agora encara outra crítica: a Copa do Mundo também é um evento de saúde pública, goste-se ou não. Nesta edição, 16 cidades vão sediar o campeonato, distribuídas entre Estados Unidos, Canadá e México, ao longo de quase seis semanas. Milhões de torcedores de todo o mundo vão se acotovelar para acompanhar os 104 jogos, chegando por inúmeros aeroportos que sustentarão, dia após dia, um volume de deslocamentos sem precedentes para o continente.
Estádios cheios, bares lotados para a “terceira etapa” do jogo: para as autoridades sanitárias norte-americanas, não há margem para erro. O risco virológico é enorme, ainda mais porque o quadro epidemiológico dos três países-sede desde janeiro é descrito como “preocupante”. É nesse terreno minado que a FIFA está prestes a jogar, sem dominar nenhuma das regras.
Sarampo, classificado automaticamente
Antes de o movimento antivacina obscurantista nos Estados Unidos espalhar suas pseudoverdades, o sarampo havia sido declarado eliminado no país em 2000: uma conquista arrancada a duras penas e que hoje é sabotada pela irresponsabilidade de minorias barulhentas e desconectadas da realidade. Causada pelo agente patogênico Measles morbillivirus, a doença volta a crescer no mundo inteiro - e os Estados Unidos estão na linha de frente do retorno desse vírus que parecia esquecido.
Desde janeiro, mais de 2.000 casos foram contabilizados no território; o mesmo total registrado em um semestre que em todo o ano de 2025. Em novembro de 2025, o Canadá entrou na lista de países onde o sarampo voltou a circular, após mais de 5.000 contaminações desde o outono de 2024. No México, a situação é ainda pior: com mais de 11.000 casos no mesmo período, o balanço do país supera o de quase todos os países desenvolvidos nesse intervalo.
Transmitido pelo ar e extremamente contagioso, um único paciente não vacinado pode infectar 18 pessoas - sem perceber e sem que o entorno perceba -, já que o sarampo pode ser transmitido por vários dias antes de a febre ou a erupção cutânea típica denunciarem a infecção.
Em estádios com capacidade entre 40.000 e 80.000 pessoas, o roteiro temido pelos epidemiologistas praticamente se escreve sozinho: milhares de indivíduos reunidos no mesmo lugar, alguns permanecendo poucos dias no país antes de voltar para casa, espalhados pelos quatro cantos do planeta, carregando um vírus que terá tempo de fazer as malas com eles.
Canícula e aglomeração: o grande incêndio a portas fechadas
Os epidemiologistas também temem que o período em que a Copa do Mundo acontece - tradicionalmente no verão (de junho a julho) - favoreça ainda mais a transmissão. Em pleno verão norte-americano, o termômetro passa com frequência dos 38 °C em várias cidades que recebem partidas: Dallas, Miami, Kansas City, Los Angeles, Cidade do México, Guadalajara, Monterrey, Toronto ou Vancouver.
No total, apenas três estádios contam com teto retrátil e um sistema completo de ar-condicionado: o AT&T Stadium, em Dallas, o NRG Stadium, em Houston, e o Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta. O calor leva multidões a se concentrarem em áreas climatizadas, onde a ventilação recircula o ar - e, junto, os agentes patogênicos em suspensão.
Além disso, as temperaturas muito altas desidratam e fragilizam as mucosas respiratórias - a primeira barreira física que qualquer patógeno aéreo precisa atravessar para infectar o hospedeiro. No caso do sarampo, isso equivale a estender um tapete vermelho.
Um sistema de vigilância entre duas frentes internacionais
Pelo menos nos Estados Unidos, as autoridades sanitárias estão em alerta para evitar uma explosão de casos. Em Georgetown, o Health Security Operations Center (uma parceria entre a universidade local e a rede hospitalar MedStar) consolida diariamente boletins epidemiológicos e os envia a centenas de atores de saúde pública em todo o continente.
Em Dallas, as autoridades ampliaram a rede de vigilância de esgoto até as proximidades do aeroporto internacional, rastreando não apenas os patógenos habituais, mas também vírus importados como dengue ou chikungunya. O sarampo pode ser identificado precocemente por esse método, porque é excretado nas águas residuais vários dias antes de os primeiros pacientes chegarem ao pronto-socorro. Uma oportunidade que as autoridades não querem desperdiçar - desde que haja recursos. “Nossos profissionais de saúde pública estão realmente sob pressão”, admite Rebecca Katz, especialista em saúde global na Universidade de Georgetown.
Os Centers for Disease Control (equivalente ao Santé publique France na França) já precisavam lidar com o foco de Ebola na República Democrática do Congo, que se intensificou no fim de maio, e com os desdobramentos da epidemia de hantavírus do MV Hondius. Duas emergências sanitárias que já mobilizam muitos profissionais e recursos, que não estarão totalmente disponíveis para monitorar possíveis focos de sarampo durante a Copa do Mundo. Um torneio que, neste ano, provavelmente chega no pior momento possível.
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