Vírus zoonóticos não precisam necessariamente “evoluir” para se ajustar ao organismo humano e, ainda assim, abrir caminho para uma pandemia. Essa é a hipótese defendida por pesquisadores dos Estados Unidos e, se ela se confirmar, a vigilância genômica sozinha deixará de ser uma barreira confiável contra a próxima crise sanitária global.
Nas últimas duas décadas, pandemias zoonóticas - causadas por patógenos que saltam de animais para pessoas - passaram a ocorrer em uma cadência que teria soado quase distópica para qualquer médico do século passado. Marburg em 1967, Ebola em 1976, SARS-CoV em 2002–2003, gripe A (H1N1) em 2009, Mpox (varíola dos macacos) em 2022, SARS-CoV-2 ou COVID-19 em 2019… a lista é extensa. E os intervalos de “calmaria” entre uma pandemia e outra parecem encurtar, algo observado pela imensa maioria dos epidemiologistas, que também concordam que não há motivo para essa tendência se inverter.
Ao olhar para esse histórico, a ciência vinha tratando como certo um pressuposto: os vírus se tornariam perigosos porque evoluiriam e se especializariam até conseguir atravessar a barreira entre espécies e, por fim, alcançar o ser humano. Porém, um estudo publicado na revista Cell em 6 de março de 2026 sugere que esse consenso pode estar não apenas equivocado, como também pode ter nos levado a trocar causa e consequência. Em vez de a adaptação ser a prova de uma “especialização” prévia, talvez estejamos vendo apenas o ajuste que acontece depois que a transmissão em humanos já começou.
Pandemias: será que estávamos errados desde o começo?
Seis vírus no foco da análise
Para colocar essa hipótese à prova, Joel Wertheim, professor de medicina na Universidade da Califórnia em San Diego, e sua equipe decidiram examinar os genomas de seis dos patógenos mais letais dos últimos 50 anos. O objetivo foi buscar, no período imediatamente anterior ao salto de cada vírus para humanos, sinais de que teria havido uma adaptação prévia.
Se esses vírus realmente precisassem “se preparar” para infectar pessoas, os genomas deveriam carregar essa marca: mutações genéticas, assinaturas de seleção positiva, rearranjos e recombinações genéticas…
O que os genomas (não) revelaram
Ao revisar em detalhe os genomas dos seis vírus citados anteriormente, a equipe não encontrou absolutamente nada que apontasse para uma adaptação antes da passagem para humanos. As mudanças evolutivas só surgiam depois que a transmissão entre pessoas estava estabelecida, e não antes. “Do ponto de vista epidemiológico, nossos resultados contradizem a ideia de que vírus pandêmicos apresentam características evolutivas particulares antes de chegar ao humano”, afirma Joel Wertheim.
A implicação é dura de aceitar - e deixa um gosto amargo - porque redes de vigilância viral foram desenhadas e financiadas com bilhões a partir da convicção de que um futuro agente pandêmico evoluiria de modo distinto dos vírus que jamais atravessariam a barreira entre espécies. Ou seja: ele se destacaria, no próprio genoma, de milhares de outros vírus animais inofensivos, permitindo que fosse identificado antes de nos alcançar.
Na prática, essa premissa nunca havia sido verificada de forma robusta antes do trabalho de Joel Wertheim e seu grupo. Se essa refutação se confirmar em escala maior, talvez seja uma das piores notícias dos últimos 20 anos para a epidemiologia. Afinal, ela sugere que a próxima pandemia pode não dar sinais detectáveis com antecedência - assim como não “enxergamos” a chegada das anteriores.
Isso também significa que qualquer um entre milhares de vírus animais que sequer foram sequenciados pode, já amanhã, passar a infectar seres humanos sem que tenhamos qualquer aviso. Nessa corrida armamentista contra a natureza, será que já começamos um passo atrás?
O problema somos nós
Se vírus zoonóticos não precisam de mudanças especiais para cruzar a barreira entre espécies, então como conseguem fazer isso? Porque nós facilitamos o caminho - muitas vezes sem perceber. O desmatamento acelerado aumenta a proximidade entre populações humanas e os reservatórios animais desses vírus, ao destruir “zonas-tampão” ecológicas que antes nos separavam de forma natural.
A pecuária intensiva, por sua vez, concentra milhões de animais em espaços confinados, criando o cenário perfeito para que um vírus animal encontre, por efeito de massa, um primeiro hospedeiro humano.
Já o comércio de animais silvestres elimina pura e simplesmente a variável geográfica: um vírus endêmico em uma floresta da África Central pode aparecer, em menos de 48 horas, em uma loja de animais em Bangkok ou em um mercado de Guangzhou.
Com a globalização do transporte e o aumento do volume de viajantes internacionais, qualquer vírus que emerja em uma área rural isolada pode chegar a uma megacidade global mais rápido do que o tempo necessário para que os primeiros sintomas apareçam no paciente zero.
O aquecimento global também redesenha por completo os nichos ecológicos de espécies selvagens. Animais (e seus vírus) migram para os polos ou para altitudes mais elevadas em busca de temperaturas suportáveis. Isso coloca esses hospedeiros em contato com novas espécies e, principalmente, com novas populações humanas que nunca haviam sido expostas àqueles vírus.
Some-se a isso a urbanização desordenada avançando sobre ecossistemas naturais, a insegurança alimentar e a resistência a antibióticos em sistemas de criação: estamos sentados sobre uma bomba que nós mesmos montamos - e cujo pavio já está queimando.
Ainda que Joel Wertheim não enumere diretamente todos esses fatores, são eles que ecólogos vêm apontando desde a década de 1980, e eles se encaixam com precisão na conclusão do estudo. “Muitos vírus talvez já sejam capazes, sem adaptação prévia particular, de infectar humanos e de se transmitir entre humanos. O fator determinante, portanto, não é a evolução deles, mas a diversidade da nossa exposição a patógenos animais”, explica ele.
Em outras palavras, nosso modo de vida está perfeitamente alinhado com o surgimento de uma nova pandemia: basta seguirmos vivendo como já vivemos. A OMS estima que existam entre 631.000 e 827.000 vírus desconhecidos em mamíferos e aves com potencial para infectar seres humanos. Se Joel Wertheim estiver certo, o número de patógenos capazes de desencadear uma nova crise sanitária mundial é, por definição, impossível de delimitar.
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