Um Mundial que virou frustração
Portugal passou o tempo todo tentando escapar de dois fantasmas que acabaram vencendo: o fracasso e a dependência de Ronaldo. E, no meio dessas duas discussões, está o treinador.
Em uma Copa do Mundo para apagar da memória, a seleção caiu diante do campeão europeu quando a prorrogação já parecia ao alcance - um contexto que até permitiria enxergar a derrota com algum distanciamento. Só que não foi assim. O que se viu foi outra atuação abaixo do que se esperava, capaz de derrubar o ânimo de muita gente, sobretudo de quem alimentou a esperança de viver uma campanha inteira.
Houve torcedores que gastaram fortunas com ingressos - os mais caros já vistos na história do futebol - e tentaram empurrar o sonho pela estrada, aproveitando rotas pelos Estados Unidos, o clima de caravana e viagem longa, ou encarando travessias intermináveis de avião. Vestiram-se a caráter nas cidades que receberam as quinas, cantaram, espalharam confiança e insistiram nela até quando ela já parecia pouca.
No fim, a Copa deixou cicatrizes: uma decepção grande, a sensação de falta de clareza na ideia de jogo, o prazer sempre travado pelo medo, e a energia mental de um time que pareceu chegar ao limite. Em vários estádios e em jogos diferentes, quem buscava um objetivo maior - ou apenas um pouco mais de fé - saiu frustrado. Desde o início, quando as expectativas eram altíssimas, Portugal já dava a impressão de estar lutando contra a própria queda.
Nas arquibancadas, Portugal refém de Cristiano Ronaldo
Ainda assim, foi uma Copa estranha também fora de campo. Portugal não contou com aquela coesão apaixonada nas arquibancadas, em parte porque não havia tantos portugueses capazes de bancar essa aventura. Mesmo com bolsões de apoio na Flórida, no Texas e no Canadá - nos estádios de Houston, Miami, Toronto e Dallas - nunca se formou uma torcida realmente forte e unida, com vozes em sintonia.
E esse retrato das arquibancadas espelhou o gramado: tanto lá quanto cá, Portugal foi refém, nesta competição, de uma figura que se impôs acima do restante: Cristiano Ronaldo. O Mundial foi dominado pelo madeirense, não só pela despedida previsível - e confirmada - do torneio, mas porque seu peso fez valer o status diante de Roberto Martínez e ocupou todas as narrativas.
Em Miami, no meio de latinos; em Houston e Dallas, cercado por mexicanos; e em Toronto, com asiáticos e imigrantes portugueses, a camisa 7 engolia o resto. Muita gente se afastava de qualquer julgamento sobre a seleção, como se o que importasse, antes de tudo, fosse ver de perto a superestrela do Mundial, o dono de inúmeros recordes e de seguidores incontáveis.
Roberto Martínez e a dependência de Ronaldo
Essa acabou sendo a Copa de Ronaldo - e, por consequência, o fracasso de Portugal será colocado na conta do treinador. Ao mesmo tempo, ficou claro que a maioria dos jogadores esteve longe do próprio nível. Pesou o desgaste da temporada para os campeões europeus do PSG; apareceu um certo declínio de Bernardo Silva; e Bruno Fernandes nunca pareceu confortável dentro de um jogo amarrado pelo receio.
Em boa medida, isso aconteceu porque a seleção precisou se moldar o tempo inteiro a uma titularidade indiscutível: a de um atacante de 41 anos, hoje mais distante dos índices de pressão sobre os zagueiros adversários. Um craque fora de série, um goleador descomunal, merecedor de elogios - mas que também precisa ser questionado. Não por nós, e sim por um técnico que jamais fez isso.
A impressão de que Portugal poderia render mais acompanhou cada partida, mas Martínez não conseguiu abrir essa porta. Nesse contexto, a pouca utilização de Gonçalo Ramos virou algo difícil de entender, e em muitos momentos se tornou insustentável ver CR7 completar 90 minutos: tanto nos dias em que marcou quanto nas partidas em que entregou pouco ao jogo.
Um adversário previsível do Congo à Espanha
No fim, Portugal se tornou um oponente fácil de ler. Foi assim para o Congo e para a Colômbia; também para uma Croácia que teve chances de antecipar a nossa despedida; e, principalmente, para a Espanha, que controlou tudo com domínio total e sem ser realmente questionada, inclusive a partir de movimentações vindas do banco.
Mesmo com a eliminação e a saída de cena, o centro das atenções permaneceu em Ronaldo: as lágrimas, o desfecho anunciado, o encerramento confirmado. Ficou evidente que Portugal, nesta passagem pelos Estados Unidos, foi quase sempre menor do que a própria estrela - e, quando isso acontece, o fracasso parece um destino difícil de evitar. A cobrança sobre CR7 foi baixa e, naturalmente, a cobrança sobre o comportamento da seleção também foi baixa.
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