Metanogênios no microbioma intestinal e produção de metano
Nem toda a gente reage do mesmo modo às mesmas dietas - e um estudo recente ajuda a esclarecer um dos motivos: pessoas cujo microbioma intestinal produz naturalmente mais metano também conseguem “espremer” mais energia e mais calorias de alimentos ricos em fibras.
Cada pessoa tem uma combinação própria de bactérias e outros microrganismos que vivem no intestino, conjunto conhecido como microbioma intestinal.
Já se sabia que a quantidade de micróbios produtores de metano, chamados metanogênios, varia bastante entre indivíduos; por isso, a produção de metano (CH₄) também não é igual para toda a gente. O que esta nova investigação sugere é que essas diferenças no microbioma podem influenciar, igualmente, quanta energia acabamos por obter daquilo que comemos.
Como foi o estudo da Arizona State University (ASU)
Conduzido por uma equipa da Arizona State University (ASU), o estudo analisou dados de um ensaio clínico em que 17 participantes seguiram duas dietas: uma dieta pobre em fibras, de estilo ocidental, e uma dieta rica em fibras. Depois, os investigadores mediram a quantidade de metano produzida (nas duas extremidades do corpo).
Com os dados adicionais de amostras de sangue e de fezes, a equipa observou que, entre quem seguiu a dieta rica em fibras, as pessoas que libertavam mais metano também tinham retirado mais calorias dos alimentos. Na prática, isso aponta para microbiomas “de alto metano” como sendo mais eficientes a decompor fibra para gerar energia.
“Essa diferença tem implicações importantes para intervenções alimentares”, afirma o microbiologista Blake Dirks, da ASU.
“Isso mostra que pessoas na mesma dieta podem responder de formas diferentes. Uma parte disso se deve à composição do seu microbioma intestinal.”
Metano, fibra e ácidos gordurosos de cadeia curta (AGCC)
Os investigadores também registaram um aumento dos níveis de ácidos gordurosos de cadeia curta (AGCC) no sangue de quem produzia mais metano - sobretudo de um AGCC específico, o propionato. Os AGCC são formados quando micróbios intestinais decompõem e fermentam fibras, e o propionato já foi associado a vários benefícios para a saúde, incluindo menos desejos por comida lixo.
Esse mesmo processo de fermentação também gera hidrogénio, que os metanogênios podem converter em metano. A hipótese dos autores é que, à medida que o hidrogénio é transformado, isso “desobstrui o caminho” para que ainda mais fibra seja digerida.
“O corpo humano em si não produz metano; só os micróbios fazem isso”, diz a investigadora do microbioma Rosy Krajmalnik-Brown, da ASU.
“Então sugerimos que ele pode ser um biomarcador que sinaliza uma produção microbiana eficiente de ácidos gordurosos de cadeia curta.”
O que isso pode significar para dietas ricas em fibras hoje
Dietas ricas em fibras há muito tempo são ligadas a vários benefícios: as fibras ajudam o sistema digestivo a funcionar bem e favorecem um microbioma intestinal mais resistente a danos e a doenças.
O que este trabalho acrescenta é um nível extra de detalhe sobre por que a fibra pode ser processada com mais eficiência em intestinos com muitos metanogênios. Ainda assim, não está claro se isso é necessariamente bom ou mau; as fibras melhoram a digestão, mas esse tipo de microbioma também extrai mais calorias.
A equipa do estudo propõe que esses metanogênios podem ter sido essenciais em humanos antigos, ao permitir que se obtivesse o máximo de nutrição possível a partir dos alimentos. Porém, os alimentos típicos das dietas ocidentais modernas tendem a ser muito mais densos em energia e pobres em fibras, e por isso essa combinação intestinal específica estaria hoje “fora do seu ambiente”.
Próximos passos da investigação
O estudo é mais um exemplo de como o microbioma intestinal está no centro de muitos processos do corpo. A seguir, os investigadores pretendem ampliar os experimentos para examinar mais de perto de que forma os metanogênios podem influenciar dietas e como isso se manifesta num conjunto mais diverso de pessoas.
“Os participantes do nosso estudo eram relativamente saudáveis”, diz Dirks.
“Uma coisa que eu acho que valeria a pena investigar é como outras populações respondem a esses tipos de dietas - pessoas com obesidade, diabetes ou outros tipos de condições de saúde.”
A investigação foi publicada na Revista ISME.
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