Medicamentos criados para tratar o diabetes ao reduzir a glicose no sangue, como o Ozempic, continuam a revelar efeitos extras - e a proteção contra a demência pode se tornar mais um item dessa lista.
Uma das classes que mais chama atenção é a dos agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1RAs), fármacos para baixar a glicose que, em ensaios clínicos, já mostraram ganhos relevantes para a saúde do coração e dos rins. Trabalhos recentes também indicam que eles podem estar ligados a um risco menor de demência.
Essa possibilidade é especialmente relevante num cenário em que cerca de 6.9 milhões de adultos nos EUA vivem hoje com Alzheimer e demências relacionadas - um total que deve mais do que dobrar até 2060.
Por que diabetes e demência aparecem juntos
Já é bem estabelecido que o diabetes é um fator de risco para demência. Pessoas com diabetes também tendem a ter maior probabilidade de sofrer AVCs por coágulos no cérebro, eventos que às vezes levam à demência vascular.
Apesar disso, a dúvida permanecia: reduzir a glicose com medicamentos específicos poderia, de fato, ajudar a evitar a piora cognitiva?
"Mas se terapias para baixar a glicose podem ajudar a prevenir declínio cognitivo permaneceu incerto", afirma Catriona Reddin, pesquisadora médica da University of Galway. "Nossos achados sugerem que os agonistas do receptor de GLP-1, em particular, podem ter um efeito protetor sobre a saúde do cérebro."
O que os estudos com GLP-1RAs e SGLT2is investigaram
O trabalho do qual Reddin participou foi conduzido por estudantes de medicina da University of Galway, Allie Seminer e Alfredi Mulihano. Já um segundo estudo, independente, foi realizado por uma equipe da University of Florida e liderado pela epidemiologista Huilin Tang.
Em comum, os dois grupos analisaram como medicamentos para reduzir a glicose que também oferecem benefícios cardiovasculares - como os agonistas de GLP-1 e os inibidores de SGLT2 (SGLT2is) - se relacionavam com o risco de comprometimento cognitivo e demência, especificamente em pessoas com diabetes tipo 2.
Evidências a partir de 26 ensaios clínicos
A equipe de Seminer reuniu dados de 26 ensaios clínicos randomizados, somando mais de 160,000 participantes. Nesses estudos, os pesquisadores compararam diagnósticos de demência ou pontuações cognitivas entre pessoas que usaram terapias para reduzir a glicose e aquelas que não usaram.
A análise apontou que usuários de GLP-1RAs apresentaram um risco 45 percent menor de demência por todas as causas e de comprometimento cognitivo. Esse padrão, porém, não apareceu entre os participantes que utilizaram SGLT2is.
Ao detalhar por subtipos de demência, a equipe não encontrou associação dessas terapias com a redução de demência vascular, doença de Alzheimer ou demência com corpos de Lewy.
"Isso é surpreendente porque esperaríamos que terapias de primeira linha para baixar a glicose com efeito cardioprotetor, como GLP1-RAs e SGLT2is, que reduzem o risco de doenças cardiovasculares, também diminuíssem o risco de demência vascular", escreveu a médica Diana Thiara, da University of California San Francisco, em um editorial publicado junto aos artigos.
Resultados com 396,963 pacientes e limitações apontadas
No segundo trabalho, liderado por Tang, os autores fizeram uma emulação de ensaio-alvo com registros de 396,963 pacientes com diabetes tipo 2. O grupo avaliou o risco de doença de Alzheimer e demências relacionadas, comparando pessoas que usaram GLP-1RAs com aquelas que tomaram SGLT2is ou outros tipos de terapias para reduzir a glicose.
Nesse estudo, houve reduções de risco estatisticamente significativas para doença de Alzheimer e demências relacionadas entre usuários de terapias cardioprotetoras para baixar a glicose - independentemente de serem GLP-1RAs ou SGLT2is. O mesmo não foi observado com outras classes de medicamentos para controle de glicose.
"Esses resultados sustentam as potenciais neuroproteções de GLP-1RAs e SGLT2is e destacam seu possível papel em estratégias de prevenção de Alzheimer e demências relacionadas", escreveram Tang e colegas.
Thiara ressalta, porém, que ambos os artigos enfrentam limitações, como períodos curtos de acompanhamento, baixa incidência de demência, fatores de confusão que dificultam a interpretação em estudos observacionais e uma classificação ampla demais ao agrupar fármacos da mesma classe, que podem conter ingredientes ativos diferentes.
"Com o advento de GLP-1RAs mais potentes, como a semaglutida, é crucial estudar esses medicamentos mais novos individualmente, em vez de agrupá-los com fármacos mais antigos na mesma classe, pois seus efeitos podem diferir significativamente", observa.
Os artigos foram publicados na JAMA Neurology, aqui e aqui.
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