Governos no mundo inteiro passaram anos incentivando a prática de exercícios. Planos nacionais, estratégias e diretrizes foram criados para estimular as pessoas a se movimentarem mais no dia a dia. Ainda assim, uma nova análise global indica que essas políticas quase não mexeram no quanto a população realmente se exercita.
Mesmo com a adoção ampla de políticas, os níveis de atividade física permanecem praticamente estáveis há mais de uma década.
Os resultados expõem um descompasso crescente entre metas ambiciosas registradas em documentos e as condições cotidianas que determinam se as pessoas caminham, pedalam, praticam desporto ou ficam sedentárias.
Para pesquisadores da UTHealth Houston, o entrave não é apenas falta de motivação individual. O problema aponta para desafios mais profundos na forma como governos transformam objetivos de saúde em sistemas de transporte, rotinas escolares, desenho urbano e decisões de financiamento.
Políticas de exercício não têm poder real
Desde 2004, 92% dos países redigiram pelo menos uma política que menciona atividade física, e 35% elaboraram um plano nacional dedicado ao tema.
Só que muitos desses textos soam mais como declarações de intenção do que como roteiros executáveis. Com frequência, deixam de lado metas mensuráveis, prazos firmes, financiamento protegido e a identificação clara dos órgãos responsáveis por colocar as medidas de pé.
“Mas isso pode ser interpretado de forma equivocada como se não tivesse havido ação ou ação de política pública em torno disso”, disse a Dra. Andrea Ramirez Varela, professora assistente de epidemiologia na UTHealth Houston.
Essa diferença é importante porque, em muitos casos, o fracasso real aconteceu depois da assinatura: a execução foi fraca. Os planos também perdem força quando, dentro do governo, ninguém os assume de facto - não entram no orçamento, não ficam ancorados num ministério e não se consolidam em lei.
Em diversos países, órgãos de saúde definiram metas que departamentos de transporte ou sistemas de educação não eram obrigados a cumprir. Além disso, gestores enfrentaram dificuldades na colaboração multissetorial - várias áreas do governo atuando ao mesmo tempo sem uma cadeia de comando bem definida.
Sem uma estrutura comum de responsabilidades, até políticas bem-intencionadas viram algo facultativo, fragmentado e fácil de deixar de lado quando o orçamento aperta.
Exercício para além da política de saúde
Estudos anteriores sobre o fosso entre política e prática já vinham sinalizando o problema que este novo trabalho agora acompanha à escala global.
Quando líderes tratam atividade física sobretudo como uma escolha individual ligada à saúde, a responsabilidade tende a recair sobre médicos e órgãos de saúde - e não sobre planeadores de mobilidade, gestores de habitação ou redes de ensino.
“Não há consenso se a atividade física é um desfecho ou um meio para alcançar outros desfechos”, afirmou a Dra. Ramirez Varela.
Essa falta de definição torna mais difícil decidir quem deve financiar programas, quem deve liderá-los e de que forma medir resultados.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que adultos façam pelo menos 150 minutos de atividade de intensidade moderada por semana - movimento que aumenta a respiração de maneira perceptível. Mesmo assim, cerca de um em cada três adultos e quatro em cada cinco adolescentes no mundo ainda ficam abaixo desse patamar.
Encarar o movimento como um bem público mais amplo muda o debate. A atividade física passa a ser associada a transporte mais limpo, ruas mais seguras, escolas mais fortes e melhor saúde mental.
Uma visão mais abrangente também ajuda a sustentar a pauta quando o orçamento da saúde encolhe ou quando a atenção política se desloca para outros temas.
Planeamento urbano que favorece o movimento
O quanto as pessoas se mexem diariamente costuma ser decidido muito antes de qualquer consulta médica. Isso depende de horários escolares, do desenho das ruas, das opções de transporte público e do acesso a espaços públicos.
“A atividade física deveria estar incorporada na forma como desenhamos as nossas cidades, ajudando a criar comunidades onde as pessoas queiram viver e se movimentar mais”, disse a Dra. Ramirez Varela.
As escolas têm um papel semelhante. Manter uma rotina ativa torna-se mais simples quando o movimento faz parte dos hábitos diários, em vez de ser acrescentado como uma tarefa extra.
Restringir o tema às secretarias de saúde ignora os lugares onde as pessoas, na prática, decidem se vão caminhar, pedalar, praticar desporto ou permanecer sedentárias.
O que a política do tabaco ensinou
A inatividade física já foi associada a mais de 5.3 milhões de mortes prematuras por ano, um peso global muitas vezes comparado ao do tabagismo.
O controlo do tabaco ganhou força quando governos definiram objetivos claros, atribuíram responsabilidades, regulamentaram ambientes e mantiveram pressão pública.
“Podemos construir esse mesmo nível de compromisso de política pública para a atividade física”, disse a Dra. Ramirez Varela.
A comparação não é perfeita, mas ilustra como o avanço pode acelerar quando líderes tratam um risco como urgente.
Também importa quem se beneficia de políticas mais robustas. Globalmente, as mulheres continuam menos ativas do que os homens em cerca de cinco pontos percentuais, um diferencial que mal se alterou.
Depois dos 60 anos, a inatividade cresce para ambos os sexos, o que torna ainda mais relevantes os ambientes que apoiam o movimento. Essas variações mostram por que uma única mensagem nacional raramente funciona para toda a população.
As barreiras mudam conforme idade, segurança, renda e rotinas diárias. Políticas que ignoram essas realidades podem até elevar lentamente as médias - ou simplesmente mantê-las no mesmo lugar.
Política de exercício que realmente funciona
Com frequência, recomendações no papel não deram resultado porque cidades, escolas, sistemas de transporte, orçamentos e lideranças raramente avançaram na mesma direção.
Hoje, facilitar vidas mais ativas nos espaços do quotidiano parece menos um desafio de comunicação e mais um desafio de governança.
A nova nota técnica sustenta que a política só funciona quando orçamento, prazos, metas e mecanismos de responsabilização são incorporados desde o início.
Liderança nítida é igualmente decisiva, porque as agências avançam com mais rapidez quando um gabinete consegue reunir parceiros, acompanhar o progresso e responder pelos resultados.
Coligações mais amplas também podem ajudar, sobretudo quando planeadores de mobilidade, educadores, empregadores e grupos comunitários identificam benefícios concretos para o próprio trabalho.
Quando a responsabilidade é partilhada, o movimento deixa de ser um slogan e vira um esforço prático - passível de financiamento, avaliação e melhoria contínua.
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