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Áustria acelera a modernização das Forças Armadas com o AAF Development Plan 2032+

Militar usando tablet com mapa em área montanhosa, helicópteros voando e soldados ao fundo.
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Depois da estreia vitoriosa da Argentina no Mundial contra a Argélia, nossa atenção começa a se voltar para o segundo jogo da fase de grupos, quando a seleção enfrenta a Áustria. Para além do futebol, o país centro-europeu tem uma realidade pouco conhecida por grande parte do público: apesar de décadas recentes de neutralidade e de não integrar a OTAN, suas Forças Armadas passam por um dos mais relevantes ciclos de modernização das últimas décadas. Diante da piora do ambiente de segurança na Europa, Viena procura recompor capacidades terrestres e aéreas que sofreram com anos de investimento limitado - uma mudança que acompanha tendências mais amplas na defesa do continente.

Embora a Áustria sustente desde 1955 uma política de neutralidade permanente - um dos pilares de sua política externa - isso não a impediu de atuar em iniciativas de segurança da União Europeia e em missões internacionais de manutenção da paz. Ainda assim, a ofensiva russa contra a vizinha Ucrânia e o consequente retorno da guerra convencional às fronteiras orientais da Europa levaram o governo austríaco a rever prioridades estratégicas, sobretudo no que diz respeito à prontidão militar e à defesa do território.

Como resposta direta a esse cenário, o governo austríaco vem promovendo uma elevação contínua do gasto em defesa e colocou de pé o programa de modernização chamado “AAF Development Plan 2032+”, voltado à renovação de equipamentos e ao fortalecimento de capacidades operacionais - áreas que exigem uma atualização significativa para se ajustarem aos desafios atuais. Um indicador claro do esforço é o salto no orçamento: de 4.860 milhões de euros em 2024 para 5.630 milhões em 2025, enquanto as projeções apontam que 2026 pode encerrar com mais de 6.110 milhões de euros destinados à pasta.

Nesse contexto, as Forças Armadas austríacas estão em plena transformação, abrangendo desde a atualização de unidades blindadas até a incorporação de novas capacidades aéreas e de defesa antiaérea. Mesmo permanecendo uma força relativamente pequena quando comparada às principais potências europeias, a sua evolução ajuda a ilustrar uma tendência continental: a volta da defesa territorial ao centro das prioridades estratégicas - inclusive para países que desejam preservar a neutralidade.

O Exército Austríaco como base da defesa territorial

O Exército Austríaco é o principal componente das Forças Armadas do país e concentra uma parte expressiva dos investimentos impulsionados por Viena nos últimos anos. Com a deterioração do ambiente de segurança europeu, as autoridades voltaram a privilegiar capacidades ligadas à defesa do território, missão que recebe destaque nos documentos estratégicos mais recentes. Isso implicou uma mudança de ênfase em relação ao foco que, por anos, recaiu sobre a participação em operações internacionais e sobre a necessidade de lidar com novas ameaças híbridas.

Também é importante considerar que a estrutura terrestre da Áustria foi pensada, em grande medida, para responder às características geográficas do país, com ampla porção do território dominada pelos Alpes. Para esse objetivo, o Exército combina unidades blindadas e mecanizadas com forças leves e de montanha, preservando uma organização voltada a operar em ambientes complexos e de difícil acesso - inclusive durante invernos rigorosos. Essa realidade moldou a doutrina militar histórica do país, com particularidades próprias em cada período. Um exemplo é o conceito de Gebirgskrieg, que foi pilar dos combates com tropas italianas na Grande Guerra e segue influenciando os planos de desenvolvimento da força.

Entre as capacidades disponíveis hoje, o Exército Austríaco conta com uma frota de 53 tanques Leopard 2A4, que formam o núcleo do poder de combate pesado, junto com mais de 110 veículos de combate de infantaria Ulan e 180 exemplares da família de blindados Pandur, empregados pelas unidades mecanizadas citadas. Esse conjunto é complementado por sistemas de artilharia autopropulsada M109A5Ö, que continuam a prover fogo de apoio às principais formações terrestres, além de unidades equipadas com morteiros de 81 e 120 mm.

Ainda que esses meios sejam modestos se comparados aos das maiores potências militares europeias, eles atendem às necessidades de um país que não enfrenta ameaças militares diretas em suas fronteiras. O mesmo raciocínio vale para o efetivo: há relatórios que estimam o contingente em torno de 11.500 homens, apoiados por uma reserva composta por 10 batalhões leves.

Dentro desse quadro, o governo austríaco divulgou um conjunto de iniciativas para reforçar as forças terrestres no âmbito do programa “AAF 2032+”. Entre elas, estão planos para atualizar os carros de combate Leopard 2, seguir ampliando a frota de blindados Pandur, incluindo variantes com capacidades de defesa antiaérea de curto alcance, e incorporar veículos de combate de infantaria adicionais. Mesmo com parte desses projetos ainda em diferentes fases de definição e implementação, o conjunto evidencia o interesse renovado de Viena em fortalecer e modernizar seus meios terrestres.

Eurofighter, Black Hawk e M-346F: a transformação da Força Aérea

A Força Aérea da Áustria é um dos campos em que a modernização aparece de maneira mais clara - e também mais necessária - sobretudo pela idade de suas principais plataformas de combate. Responsável pela vigilância e proteção do espaço aéreo nacional, além de missões de transporte, apoio às forças terrestres e assistência à população civil, a força passa por uma renovação destinada a manter capacidades consideradas essenciais para sustentar a dissuasão no futuro.

Nessa linha, o eixo da aviação de caça austríaca é formado por 13 Eurofighter Typhoon Tranche 1, distribuídos em dois esquadrões e empregados principalmente em tarefas de vigilância e policiamento aéreo. Para quem conhece o caça europeu, é evidente que se trata da variante mais antiga disponível, hoje vista como insuficiente por não trazer capacidades multirrole mais amplas que complementem o foco original em superioridade aérea - algo introduzido em blocos posteriores. Atualmente, ainda que em países como o Reino Unido estejam sendo retirados de serviço, esses caças não parecem ter um substituto direto com capacidades equivalentes ou superiores, ao menos entre opções oficialmente anunciadas.

Já o transporte aéreo da Força Aérea da Áustria se apoia em uma pequena frota de aeronaves C-130K Hércules (em processo de ser modernizada com os C-390 Millennium da Embraer) e em oito PC-6B Turbo Porter. Nas asas rotativas, as operações ficam a cargo de nove helicópteros S-70A Black Hawk, complementados por vinte e dois Agusta Bell 212 e por onze helicópteros leves AW169M incorporados nos últimos anos. Essas aeronaves são fundamentais em tarefas militares, mas também em missões de apoio à população, especialmente em um país no qual a geografia e o clima frequentemente exigem rápida resposta a emergências.

Nesse ponto, vale lembrar que a instituição aguarda a entrega de uma nova frota de UH-60M Black Hawk comprados dos EUA, destinada a iniciar a substituição dos Agusta Bell 212, que seriam desativados à medida que as novas unidades chegassem. Como já noticiamos no fim de maio, o primeiro exemplar desse lote já foi entregue ao Exército dos Estados Unidos para concluir a etapa final de instalação de equipamentos e a certificação correspondente - último passo antes do envio à Áustria.

Quanto às plataformas de treinamento, o país dispõe hoje de uma dúzia de PC-7 Turbo Trainer, além de quatro DA40NG com papel central na instrução básica. Até 2020, Viena ainda operava o Saab 105 como treinador avançado, mas, após a decisão de retirá-lo de serviço, não houve substituição imediata. Somente no fim do ano passado a Força Aérea conseguiu firmar contrato com a italiana Leonardo para iniciar a produção de uma dúzia de aeronaves M-346F na versão Block 20, cuja capacidade de atuar como caça leve também a coloca como potencial complemento aos Eurofighter.

Para fechar esta seção, é preciso mencionar as defesas aéreas que permanecem sob a estrutura da Força Aérea. O principal trunfo austríaco está nos sistemas de curto alcance Mistral, bem como em baterias equipadas com canhões GDF-005 de 35 mm, que, em conjunto, complementam a vigilância aérea atribuída aos Eurofighter. Embora sejam capacidades relativamente limitadas frente às empregadas por outros países europeus, elas se adequam às necessidades e à escala de uma estratégia de defesa ainda centrada na proteção do próprio território.

Jagdkommando: operações especiais no estilo austríaco

Sem perder de vista que a Áustria não possui uma Marinha que mereça uma seção própria - já que o país não tem acesso ao mar desde a dissolução do Império Austro-Húngaro após o fim da Grande Guerra -, é interessante oferecer um breve panorama de sua principal unidade de operações especiais: o Jagdkommando. Trata-se de um grupo que, mesmo com a neutralidade mantida nas últimas décadas, consolidou prestígio suficiente para merecer destaque.

Criado nos anos 1960, o Jagdkommando é especializado em reconhecimento especial, contraterrorismo, resgate de reféns e operações de alta sensibilidade. O rigor do processo seletivo e do treinamento tornou a unidade uma das mais seletivas da Europa, e ela mantém, além disso, cooperação estreita com forças equivalentes de países aliados.

Ao longo de seu histórico de emprego - naturalmente cercado por certo grau de sigilo -, é possível ressaltar a participação na proteção de campos de refugiados no Chade, a presença em território sérvio (Kosovo) e o desdobramento em apoio às tropas francesas no Mali, no âmbito da Operação Barkhane. Bósnia e Herzegovina, Afeganistão e Congo estão entre outros cenários em que foram vistos em ação.

De acordo com a pouca informação disponível ao público, as Forças Armadas austríacas contam com dois grupos ativos de forças especiais e um grupo de reserva, estruturados para oferecer capacidade de resposta rápida dentro e fora do território nacional, a partir de sua base em Wiener Neustadt. Em cada grupo, há especialistas em comunicações, médicos de combate, equipes de demolição, pilotos de drones, unidades de reconhecimento, operadores caninos e atiradores de precisão, entre outros recursos.

Uma neutralidade sob novos desafios

Por mais de sete décadas, a neutralidade foi um dos alicerces centrais da política externa e de defesa da Áustria. Contudo, as mudanças no ambiente de segurança europeu nos últimos anos obrigaram Viena a reavaliar parte de suas prioridades, impulsionando investimentos e programas de modernização voltados a assegurar que as Forças Armadas sigam sendo um instrumento eficaz para proteger a soberania nacional.

Enquanto a seleção austríaca se prepara para enfrentar a Argentina em campo, suas Forças Armadas também conduzem o próprio processo de adaptação. Um movimento que não pretende projetar poder além das fronteiras, mas sim garantir que a neutralidade austríaca continue sendo uma escolha sustentada por capacidades militares críveis, mesmo diante de limitações inerentes.

Imagens utilizadas apenas para fins ilustrativos


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